27
abr
2012

Como surgiu Políticas Públicas na minha vida

 

Como surgiu Políticas Públicas na minha vida

Falar de políticas públicas para mim é um prazer imenso, sinto meu coração até bater mais forte. Mas antes de entrarmos em termos técnicos, preciso contar a vocês como tudo começou.

Desde pequena vivo imersa no assunto saúde pública. Minha mãe enfermeira e meu pai representante de medicamentos quase nunca estavam em casa, sempre viajando para trazer o sustento para nossa família, onde vivíamos de maneira regrada.

Bem, mas minha mãe, ahhh, Minha Mãe, esta me levava para periferia da cidade Olímpia-SP, onde nasci, para fazer curativos, dar banho nos acamados, naquelas pessoas que ficavam internados na enfermaria pelo SUS e que não tinham dinheiro para pagar uma enfermeira para cuidar quando saiam do hospital. E lá íamos D. Lia, minha mãe, e eu, caminhando e conversando muito, porque fazia muitas perguntas. Aprendi que era necessário ajudar as pessoas de forma despretensiosa como gostaríamos que fossemos ajudados.

Quantas vezes eu dormi embaixo da encubadora no berçário do hospital até que ela terminasse seu plantão. Me enrolava no cobertor e íamos juntas pra casa, em seu colo quentinho, madrugada  afora. E assim fui crescendo, vendo as diferenças, as injustiças e a desigualdade social.

Nunca me faltou atendimento médico (por que será?). Vivia a maior parte da minha vida ali, junto deles. Até a marmita do nosso almoço era no hospital. Saia da escola, passava lá, pegava a marmita e ia pra casa almoçar, eu e meu irmão, que pra mim era mais um filho, tamanha responsabilidade que tive que ter com ele.

Não foi fácil, meus pais lutavam muito. Mas sempre nos ensinaram que nossa luta era muito pequena perto de muitos que nem tinham o que comer ou vestir. Agora me perguntem, e Dentista?

Ah, Dentista era luxo. Não tínhamos dinheiro para pagar e o Posto de Saúde, acredito que nem preciso comentar – continua como hoje. Sentia muita dor, e como é triste sentir dor de dente. Nas madrugadas que chorava de dor pensava, ”engraçado né, dente adora doer à noite.” Dizia para minha mãe, “não aguento mais, quando crescer vou ser dentista, porque não vou deixar uma criança sequer sentir dor de dente, por falta de dinheiro, nesse mundo.” Minha mãe chorava e saia pedindo à alguns dentistas amigos que aliviassem minha dor e, claro, encontramos muitas pessoas boas pelo caminho… foi assim que tudo começou!

Com a minha dor e a minha indignação de ver a dor do outro, aprendi com meus pais que era possível melhorar o mundo: era cada um fazer a sua parte.

Meu pai morreu quando tinha 16 anos. Precisei assumir um papel que não era meu, mas o universo assim quis. Minha heroína continuou firme até conseguir me formar. Chegou até a ser enfermeira dos filhos de alguns políticos renomados do estado de Sao Paulo – ai podem imaginar o que eu escutava. É pessoal, acredito que foi necessário para meu crescimento todo este aprendizado.

Na faculdade tudo foi muito difícil. As vezes não tinha nem dinheiro para comer, mas me formei com um senso crítico e aguçado e uma vontade louca de mudar o mundo, de poder ser a voz daqueles que se calam. Acho que estou conseguindo, porque não estou mais sozinha, hoje tem um grupo de pessoa que juntas lutam pelo mesmo ideal e temos vencido.

Uma dessas pessoas que amo tanto outro dia me disse: “estou aqui debulhando em lágrimas por confirmar o que também sentia. É impressionante, juro que tenho a mesma sensação. Embora eu não tenha a sua doçura, pois um pouco perdi na minha caminhada, sei que somos muito parecidas, um pouco recatada, um pouco moleca…”

Esta pessoa entre tantas outras é uma das que a TdB proporcionou reencontrar! Minha resposta? ”Só não perdi minha doçura no decorrer da caminhada porque sempre voltei pra buscá-la de volta, é minha essência”.

Por essa e tantas que hoje defendo, luto, brigo e estudo muito procurando embasamento para defender e contribuir como um cisco, eu sei, para a mudança das políticas públicas em nosso Brasil.

A parte técnica vem no próximo depoimento prometo.

Até a próxima…

 

Adriana Papel Dib
Coordenadora e DENTISTA DO BEM de São Luís de Montes Belos/GO



26
abr
2012

Quando um sonho se torna realidade…

por Nícia Paranhos Arruda
(coordenadora voluntária de Barra Bonita e Igaraçu do Tietê/SP)

 

Sempre assisto ao programa do Jô Soares e me envolvo com seus entrevistados, mas nunca imaginei que um dia iria estar lá e me sentar no “SOFÁ do JÔ”.

Em 2007, na minha primeira Capacitação como voluntária da Turma do Bem, uma das atividades da programação era a ida aos bastidores do Programa do Jô assistir a uma gravação. Fiquei numa euforia tremenda, pois seria a realização de um sonho muito antigo.

Curti tudo aquilo com uma sensação estranha, um misto de realidade e sonho, custei acreditar que realmente eu estava lá, na platéia de um programa que sempre gostei, vendo como tudo era feito. Aquela magia das gravações, aquele truques de filmagem (imaginem vocês que “gravamos” 03 programas. A platéia tinha que ser animada, aplaudir quando solicitada,vibrar e se calar, tudo num comando de alguém que ficava “regendo” a platéia.)

Dá prá perceber como curti cada momento, pela riqueza de detalhes…

Agora vocês têm uma idéia de como meu coração ficou, no dia 22/10/2010, após 03 anos, quando recebo um telefonema do Dr. Fábio Bibancos (que já é um acontecimento), dizendo que o Jô Soares iria entrevistar as 05 finalistas do Sorriso do Bem 2010???? Me lembro muito bem de só ter conseguido perguntar se iríamos sentar naquele sofá, incrédula ainda…

Daí começou minha expectativa… como demorou um novo contato, tanto que cheguei à pensar que tinha sonhado com aquele telefonema.

Então começou aquela troca de emails, entre as 05, da TdB (afinal, queríamos nos preparar para o grande acontecimento), da produção do programa que, imaginem vocês, fez questão de me mandar uma passagem de avião de Bauru para São Paulo, pois a prioridade era o bem estar do entrevistado – imagine se eu me estressasse com um congestionamento na Castelo Branco ou ainda um acidente???? (foi essa a justificativa do produtor do programa). Eu me enchi de coragem e voei até São Paulo,rs… Ah! Tinha o motorista da Globo, com uma “plaquinha”, me esperando no aeroporto, como nos filmes. Achei muito chique.

Chegando na majestosa Globo (fui a primeira que chegou), tinha camarim,cabeleireiro, maquiador e até camareira para cuidar de sua roupa (a escolha da roupa, foi um capítulo à parte, quem sabe um dia eu conto aqui…).

Depois da chegada das 05, e devidamente produzidas, fomos para a platéia, mas agora não era para assistir, seríamos assistidas. (nervosismo à flor da pele).

Não consigo dar detalhes, pois como num sonho, as coisas se misturavam e só consegui saber tudo que realmente tinha “rolado”, depois que assisti no Youtube… pois mesmo assistindo pela televisão, que foi ao ar na mesma noite, ainda nas nuvens, não conseguia me ver lá, no famoso SOFÁ… Demorou para a ficha cair…

 

 

Segredinho: assisti inúmeras vezes, das quais, muitas escondidas, pois o pessoal daqui não acreditava que eu ainda não tinha decorado a entrevista.

Ps: Estivemos no programa do Jô, eu, Bruna Ganzarolli Niero Costa, Anna Cristina Tenan, Fátima Araujo e Carmen Falcon, finalistas do Prêmio Sorriso do Bem 2010



25
abr
2012

Sonhos

Sonhos

Quando criança, levei uma vida apertada. Problemas de família, separação dos pais, falta de grana… coisas até mais comuns nos dias de hoje (mais faladas abertamente pelo menos), mas na minha época nem tanto! Sonhar sempre foi bom, mas minha consciência infantil não me permitia ir tão longe!

Cresci, me formei Dentista com muito sacrifício da minha família. Trabalho num lugar legal, bem freqüentado, com meus irmãos do meu lado! Isso é uma parte do sonho realizado!

Tenho uma família linda, que me apóia e está sempre comigo nas dificuldades. Outro sonho sendo realizado a todo momento…

Mas e o futuro? Ainda tenho sonhos a serem realizados….

Um Brasil mais justo! Pessoas que não olhem somente para os próprios pés! Pés na maioria das vezes bem calçados… mas e os que não tem nada para calçar? Para comer? Vestir? E escovar os dentes, então??? Um sonho para muitos brasileiros!

Por isso entrei na briga! Estou trabalhando firme para que os políticos de São Paulo, onde vivo, concordem e façam de tudo para a inclusão do Kit de higiene Oral (escova de dente, pasta de dente e fio dental) nas cestas básicas do município e estado. Inclusão do kit para serem distribuídos aos alunos da rede pública de ensino, para que TODOS possam ter condições de higiene oral digna! Não adianta falar comente em restaurar dentes se estes jovens não tem com o que fazer a higiene!

Um sonho sim, que ainda há de ser realizado! Estou na luta, não mais sozinho! Uma turma toda de Dentistas, voluntários como eu, estão nessa! Acho que um sonho assim tão grande merece ser realizado!

Vamos conseguir!

 

Marcos Jordão
Coordenador e DENTISTA DO BEM de São Paulo/SP



24
abr
2012

A importância do exemplo

A importância do exemplo

 

Há alguns anos assisti a um vídeo no Youtube que falava sobre a importância do exemplo de pais para filhos. Mostrava que tudo o que fazemos é refletido neles e, consequentemente, copiado na maior parte das vezes, sejam atitudes ruins ou boas.

Esses dias algo me fez lembrar desse vídeo. Assisti-o novamente.

Semana passada, minha filha, a Bia (que tem 12 anos e está no sétimo ano) veio pra casa com uma amiga do colégio. Elas tinham que  fazer um trabalho de redação. A ideia era entrevistar alguém importante ou que fazia algo importante. E, para minha surpresa, ela, sua amiga e alguns amigos de classe resolveram que eu deveria ser a entrevistada devido ao trabalho voluntário que faço aqui em Pindamonhangaba.

Eis que vieram com várias perguntas elaboradas por eles mesmos: “Por que você entrou para a ONG?” “O que te levou a fazer esse trabalho voluntário?”… E por aí vai. Pediram emprestado o vídeo do Alex, Dente por Dente, para apresentarem na sala de aula.

Aquilo me encheu de orgulho e me emocionou tanto que tive de disfarçar as lágrimas em meus olhos. Tive mais uma vez a noção de como este trabalho da TdB é grandioso. Essas crianças estão crescendo, aprendendo e entendendo que para um mundo melhor é importante a solidariedade… Há sim muita possibilidade de um mundo bem melhor… e justo!

E foi aí que lembrei do tal do filme do Youtube…

Para quem quiser se emocionar com o vídeo segue o link:

 

Luciana Bason
Coordenadora e DENTISTA DO BEM de Pindamonhangaba/SP



23
abr
2012

A realidade pode ser melhor do que o sonho…

 

A realidade pode ser melhor do que o sonho…

Há trinta anos a odontologia na Zona da Mata Mineira não era para muitos. Ortodontia então, pra pouquíssimos.

Eu sou o filho caçula de uma família de sete irmãos e as minhas vontades, sempre que possível, eram atendidas. Mas aparelho ortodôntico era pra rico e estávamos muito longe disso. Cobrava-se em dólar e a manutenção era um salário mínimo. Filho de mãe costureira e pais separados, eu ia ficar dentucinho por muitos anos.

Eu tinha 13 pra 14 anos e acreditava que, se conseguisse um emprego, poderia pagar este sonho. Convenci minha mãe e fui fazer um curso de datilografia (lembram-se disso???). Era um meio de conseguir um trabalho melhor. Tive sorte, fiz o curso, fui um bom aluno e me contrataram como instrutor. Podem acreditar, virei da noite para o dia professor de datilografia… foi o máximo, meu primeiro emprego formal.

Conseguimos uma consulta com um Ortodontista mais próximo da minha cidade, Dr. Julio, em Ponte Nova, a 100 km de onde eu morava, um pulo… Rs. Minha mãe, com muito esforço, pagou o aparelho e todo meu salário era pouco para pagar a manutenção, mas mesmo assim … era meu sonho. Eu ficava horas na sala de espera do Dr. Julio até a hora do meu ônibus. Muitos clientes… inúmeros, meu Deus. Ser Dentista dá dinheiro, pensava, quero ser Dentista !!!

Os meses passavam, os anos passavam e eu estava lá no consultório do Dr. Julio. O cara comprou uma fazenda, um carro importado, uma casa na praia, ficou rico. Ficava conversando com ele horas, nem saia mais do consultório quando terminava minha consulta, invadia seu espaço, virei de casa. Queria ser Dentista, queria ser Dentista, queria ser Dentista.

Cresci com este ideal. Fiquei dois anos fazendo vestibulares, 10 no total. Só pra Odontologia… quando tinha que escolher uma segunda opção, quando tinha Medicina entre elas, era sempre a segundona. Só eu mesmo, devinham achar que eu era doido.

Entrei na Universidade, estudei muito, me formei e, por uma força maior, cai aqui no Mato Grosso do Sul. Putz … aqui seria mais fácil de ser fazendeiro e comprar uma boiada. Penso hoje, se isso tivesse se realizado, o que seria de mim??? Ou melhor, o que seria da boiada??? Acho que morreria toda de fome.

Faço 20 anos de profissão neste ano, fiquei rico com ela. Claro que um pouco diferente da fortuna adquirida pelo Dr. Julio. Não sou fazendeiro, não tenho casa de praia e nem investi em outra área. Não seria nada nesta vida se não fosse Dentista, é a única coisa que sei fazer com prazer, com amor, com vontade. Ainda mais agora que posso exercê-la em algumas horas de minha jornada, sem o objetivo financeiro, simplesmente pelo prazer de um sorriso. Quer melhor do que isso???

Fiquei rico de outra maneira, sou a pessoa mais feliz do mundo com a minha profissão, estou realizado, encontrei o meu caminho, dinheiro nenhum paga isso.

Gostaria muito que meu filho também tenha este ideal na profissão que ele escolher … minha torcida, vocês já sabem pra qual, ne !!! Sou idealista.

 

Estevom Molica
Coordenador e DENTISTA DO BEM de Campo Grande/MS



20
abr
2012

À mesa com Fernando

por Luiz Roberto Scott
(coordenador voluntário de São Paulo/SP)

 

Fim de tarde num café qualquer, de uma esquina qualquer, de uma cidade qualquer.

Ele já estava lá. Aproximo-me, apresento-me e pergunto se posso me sentar com ele. Ele assente com um gesto de cabeça e um pequeno sorriso nos lábios.

-Fernando, posso lhe chamar assim, não?

-Claro, chame-me como quiser, mas de fato não precisa… Estarei aqui…

Aceno para o garçom e peço duas taças de vinho e ali regando as palavras iniciamos a conversa, calma, sem pressa alguma, afinal tínhamos tempo… E ele muito mais que eu.

Lá pelas tantas surge um assunto muito atual, tão inquietante quanto preocupante.

-Fernando, não achas que nas mesas familiares, o lugar dos pais, atualmente é incerto?

-Mesas familiares meu caro, onde? Em tempos de fast food, da praticidade… Elas são escassas até onde existem…

-Mas achas que lhes tiraram o lugar ou eles não souberam escolher e se posicionar?

-Mas de onde mesas não há, que dirá de tais lugares; além do mais a vida tem fases, meu caro… (chamava-me assim não por afeição, talvez por não lembrar do meu nome…)

-Me refiro a partir da adolescência dos filhos…

-Fase difícil, meu caro… Alias todas as fases podem ser mais difíceis se assim o desejar e não o fizer…

Fernando tem dessas coisas, temos que conversar pausadamente, porque sua dialética é provocante… Tenho que digerir cada frase para continuar a prosa… E ele continua:

-Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

-Isto Fernando, mas será que nesta travessia eles não ficaram à deriva… A procura da liberdade não os deixou isolados?

-A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.

-Então você acha que isto é uma evolução? Sabe, às vezes acho que os pais são vistos, tratados e atuam como verdadeiros bancos de esperma, e sabe como as instituições bancárias sempre causaram desconfiança…

-Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?

-Entendo… Acha então que lhes faltam vontade e direcionamento?

-Querer não é poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer.

-Mas a função de provedor e ditador doméstico já não lhes cabe mais. As coisas mudaram, desde a revolução industrial; a evolução tecnológica e a liberdade de expressão, os direitos femininos conquistados (mais do que justos diga-se de passagem) e o controle da concepção pelas mulheres … São causas que conduziram os homens a omissão?

-Meu caro, precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.

-Ahh então não é omissão, é independência?

-A renúncia é a libertação. Não querer é poder.

Neste momento peço mais duas taças… esse hiato seria necessário para tentar entender o Fernando, inspirado e instigante como sempre. A grande vantagem do Fernando, em nossas conversas, sempre foi a de ele não se importar se eu me atrapalhasse e o chamasse de Álvaro, Ricardo ou mesmo Alberto, balançava a cabeça lentamente num gesto de pura compreensão e até com um certo orgulho.

Saboreamos o primeiro gole da segunda taça, e ele continua:

-Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer.

-Certo Fernando, com isso quer dizer que as gerações atuais dos pais estão sendo penalizadas por isto e condenadas a caminhar nas trevas?

-Tudo em nós está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito do mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós…

-Entendo. Então você acha que não depende apenas dos pais para que haja esta mudança deles próprios, talvez a sabedoria das mulheres, até por complacência seria útil na busca deste novo posicionamento…

-Tudo que existe, existe talvez porque outra coisa existe. Nada é, tudo coexiste: talvez assim seja certo…

A noite avançou sobre a conversa, já havia poucas pessoas na rua… era hora de ir.

(… o melhor tempo é o que investimos nas pessoas…)

Sugiro as duas taças saideiras:

-Fernando, toma a saideira?

-Claro, não sou de ferro…

Degustamos em silêncio aquela última taça de vinho do dia… (era o momento de digerir o assunto.)

Após pagar a conta…

-Ricardo, hoje é por minha conta!

E ele mais uma vez assente com a cabeça e o mesmo sorriso enigmático.

evanto-me e me despeço de Álvaro:

-Tchau, Alberto! E obrigado pela clareza.

Caminho lentamente para casa, a relembrar das nossas conversas. Hoje ele não disse, mas já havia dito e aquilo não saia de minha cabeça no meu caminhar:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

 

 

(N.A.)
Fernando Pessoa criou 3 Heterônimos (autores fictícios criados por alguém, com personalidade e traços específicos em suas obras; diferente de pseudônimos que são nomes fictícios de um mesmo autor): Álvaro de Campos – Ricardo Reis – Alberto Caeiro

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), poeta e escritor português.

 

(Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus.)

Na zona do Chiado na capital de Portugal, Lisboa, encontra-se uma das estátuas mais famosas do país: a do escritor português Fernando Pessoa.

A estátua é feita de bronze e é obra de Lagoa Henriques. Encontra-se no bairro lisboeta do Chiado, mais concretamente está na esplanada do famoso e emblemático café A Brasileira, fundado em 1905, que vendia café do Brasil já naquela época, já que o seu dono tinha vivido nesse país e importava diversos produtos que eram originários daí. O café A Brasileira era famoso entre os artistas de Lisboa e era freqüentado pelo próprio Pessoa, Jorge Barradas ou mesmo Almada Negreiros.



19
abr
2012

E se realmente o mundo fosse acabar?

 

E se realmente o mundo fosse acabar?

Impulsionado pela má  interpretação do calendário Maia, 2012 trouxe a tona o temor do fim dos tempos. Desfeito o mau entendido a vida segue, mas sem afastar o pensamento pessimista que traz consigo outros questionamentos como: o que posso fazer antes que o mundo se acabe?

Logo me ocorre aquela música da Carmem Miranda – E o mundo não se acabou.

“Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá no morro não se fez batucada

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar

Beijei na boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou”
Uma delícia, né?

Como de uma forma ou de outra um dia tudo terá fim, eu é que não vou ficar adiando fazer tudo que amo…

 

Saulo Nixon
Coordenador e DENTISTA DO BEM de São Gonçalo/RJ



18
abr
2012

Mudanças

 

Mudanças

Mudanças são necessárias quando não estamos satisfeitos com algo, ou quando queremos algo novo, mesmo estando cômodos com a situação.

Hoje em dia, muita coisa mudou, desde livros até a tecnologia. Não precisamos mais ir à biblioteca para ler um livro, lemos em casa, no computador. Existem sites que disponibilizam livros para Downloads.

Em alguns postos médicos a tecnologia é impecável, tendo equipamentos de primeiro mundo. Mas de que adianta tecnologia de ponta, sendo que o básico muitas pessoas não tem acesso?

Vejo sempre na TV novas propagandas de novos sistemas de saúde, em novas cidades, novos projetos de atendimentos e blá blá blá… A imagem que passam é que tudo está às mil maravilhas. Porém, não é bem assim.

Por exemplo, os postos de saúde. Existem lugares que são incríveis. Já outros são um lixo… somos tratados como qualquer “coisa”, não existem equipamentos para certas especialidades e, quando têm, a consulta só é marcada para um prazo de um mês a dois.

Mas minha discussão não é para julgar, mas, sim, para ressaltar que algumas pessoas não se importam com os outros de fato. Querem apenas passar uma boa imagem. Se em vez de ficarem se gabando com propagandas, fossem planejar como acabar com as filas de espera, ou como colocar mais médicos especializados, iríamos ter algo mais justo. Se tudo na vida fosse feito na base do “e se fosse eu” o mundo estaria melhor.

 

Manoel Araujo
Beneficiário do projeto DENTISTA DO BEM de São Paulo/SP



17
abr
2012

Uma reflexão filosófica para descontrair concepções odontológicas

Uma reflexão filosófica para descontrair concepções odontológicas

Recentemente venho pensando muito no verdadeiro significado do que é sair da caverna. Por isso, nada mais adequado do que compartilhar com vocês uma adaptação de “O Mito da Caverna” retirado da obra “A República” do filósofo Platão. E, quem sabe trazer um pouco de inquietude e questionamento sobre nós mesmos.

“Numa montanha distante (ou, quem sabe, mais próxima do que se pode imaginar) havia uma caverna. Seu formato era semelhante ao de uma enorme garrafa. Pelo ‘gargalho’ da caverna, passavam a luz e o ar.

À medida que se caminhava para o fundo, ficava mais largo o espaço entre o chão e o teto. A caverna terminava num paredão de pedra. Do lado de fora, sobre uma rocha, uma grande fogueira projetava sua luz sobre o fundo da caverna. Assim, como a tela de um cinema natural sempre em funcionamento, o paredão era iluminado permanentemente pelo fogo.

Na beira da entrada da caverna, que era semelhante a um muro, havia uma estradinha. Por ela transitavam pessoas que iam ao mercado, comprar e vender mercadorias. Elas conversavam, riam e o som de suas vozes ecoava dentro da caverna. Além disso, as estatuetas e pequenos animais que carregavam sobre a cabeça recebiam os raios de luz da fogueira. Isto fazia com que as sombras dos objetos fossem projetados no fundo iluminado da caverna.

Dentro da caverna moravam homens e mulheres que jamais haviam saído da caverna e sempre estiveram acorrentados ali. Eles tinham uma corrente no pescoço, que os impedia de olhar para trás. Mas, mesmo que conseguissem virar a cabeça, nenhum deles teria coragem de fazê-lo: ‘Olhar para outra direção dá azar’ comentava-se.

Com as costas para a entrada, ficavam vendo as sombras projetadas ao fundo da caverna e pensavam que aquilo era a realidade.
Essas pessoas trabalhavam o dia todo retirando da caverna ‘minério’ que não sabiam ao certo o que era, o colocavam em cestos e o material era recolhido pelo Chefe!

Chefe! Também era acorrentado, mas tinha uma diferença: sua corrente era muito comprida, o que lhe permitia andar entre os prisioneiros e chegar até lá atrás, onde ninguém podia vê-lo.

Chefe! era quem levava as barricas cheias de pedras até a entrada da caverna e as trocava por barricas cheias de pães, Chefe! era mágico. Os acorrentados passavam a maior parte do tempo com fome, ao receberem pedaços de pães recebiam-nos com maior alegria e antes de devorá-los, agradeciam a bondade do benfeitor.

Os presos jamais reclamavam de suas condições, eles nem sabiam que estavam presos, porque todos estavam acorrentados e achavam isso natural. Além de que viam isso com carinho, afinal a corrente era a garantia de segurança, ela evitava, por exemplo, no caso de um tombo, o deslizamento por um abismo.

As pessoas moradoras da caverna denominavam-se cavernosos, adoravam a sonoridade da palavra e tinham enorme orgulho disso.

Os momentos mais gostosos do dia aconteciam quando aparecia alguma sombra lá na frente, na parede. Aí todo mundo parava de cavar e retirar pedras e brincava de adivinhar o nome das sombras que estavam se mexendo na parede iluminada. Mas os acorrentados, nunca chegavam num acordo. Cada um gritava mais alto que o outro, para dar o seu palpite. Também faziam gozação, achando que os companheiros estavam querendo enganá-los.

A sombra predileta era a que fazia o som ‘cocoricó’. Um preso gritava que o daquilo era ‘vaca’. Outro dizia que era ‘pedra’. Mais adiante alguém sugeria que era ‘galo’, mas ninguém acreditava. A brincadeira terminava em muitas risadas.

Como ninguém tinha certeza do que se tratava, os acorrentados pediam a Chefe! que lhes ensinasse o nome daquela imagem. ‘Trata-se de um elefante’. E todos concordavam com Chefe! Ele tinha enorme sabedoria.

A fama de Chefe! era tanta que ninguém notava quando ele (por acaso, claro) trocava os nomes, falando ‘tapete’ para uma coisa que ele tinha ensinado que era ‘elefante’. Bem, quase ninguém notava.

Os cavernosos brincavam muito, adoravam bater corrente e fazer o som de hum, hum, hum! Mas às vezes, as coisas, para alguns não ficavam muito divertidas. Quando acontecia de algum cavernoso colocar menor quantidade de minério no cesto Chefe! pregava um susto , vinha por trás e ZÁS! Jogava um capuz na cabeça do coitado e, em seguida, soltava o cadeado de sua corrente.

O ‘libertado’, confuso, ficava agitando os braços. Daí, Chefe! Gritava: ‘Homem ao mar!’. Ninguém entendia o significado dessa expressão. Mas não faz mal: era o sinal para que o preguiçoso fosse empurrado, em meio a gargalhadas, o mais longe possível de seu lugar . Aí, tiravam o capuz.

Perdido, o alvo da brincadeira perguntava para onde deveria caminhar, cada um dizia para um lado, em desespero o liberto era resgatado por Chefe! quando todos já dormiam exaustos de brincarem.

Mas um dia, fizeram-na com Sou, um dos acorrentados mais jovens. Ele ficava bem perto do paredão iluminado, onde recebia lições extras. Chefe! estava tentando ajudar Sou a perder o estranho mau hábito de estranhar quando ele dava nomes diferentes à mesma sombra.

Sou há dias passava fome, ele era o último a receber o pedaço de pão. Sem forças sua produção caiu bastante.

Um dia, para seu desespero, foi encapuzado e privado de sua guia e segurança: a corrente. Sou berrava em meio a alegria de seus colegas. Rodou pela caverna mais do que de costume, sem conseguir se encontrar. Tirou o capuz.

Sentiu seu coração bater descontrolado quando uma luz forte irritou-lhe os olhos. Continuou a caminhar, repentinamente soltou um grito de pavor , mas com o passar do tempo Sou passou a acostumar com a claridade, com o olfato, e com as sensações na pele, suas percepções notaram maravilhas do mundo externo, com isso surpreendeu-se.

Notara com admiração tudo o que estava ao seu redor. Já era tarde e Sou adormeceu, quando acordou pensara que tudo não passara de um sonho, acreditou estar na caverna acorrentado. Mas que nada, estava fora da caverna.

Feliz retornou correndo para contar a novidade aos outros.

‘Gente! Estou de volta e quero contar-lhes as maravilhas descobertas fora da caverna. O que vocês estão vendo aí no paredão não passa de sombras. Existe um mundo lá fora, muito livre, bonito e gostoso do que esse buraco abafado em que nascemos!.

Chefe! hostilizou Sou. Disse que ficara louco ao ser desacorrentado e salientou:

‘Este verme não merece viver aqui, entre gente decente!’

Sou, surpreso, precisou correr muito para não ser estraçalhado pelos cavernosos. Enquanto corria ouviu alguém gritando: ‘vamos com você’!

- Venham! Sigam minha voz! Disse o rapaz. Correndo no escuro cantava: ‘Eeeeuuuu Soooou! Eeeeuu Sooou!’.

Fora da caverna, Sou percebeu que estava acompanhado por uma menina. ‘Aqui na luz você fica mais bonito…’, disse ela. E sorriu.

Logo depois, capengando, apareceu um velhinho. ‘Quero aproveitar toda a vida que ainda me resta’, disse, soltando uma risada marota.

Os três se abraçaram. Felizes seguiram juntos na direção das pegadas humanas deixadas no caminho.”

Chego a conclusão de que é necessário refletir sobre o que se quer, o papel a desempenhar e o que desempenho. Sair do acorrentamento não é tarefa fácil quando nem ao menos nos demos conta de que estamos presos.

Saiamos de nossas cavernas!

 

 Renata Cancian

Coordenadora e DENTISTA DO BEM de Campinas/SP



17
abr
2012

Pacto dos Prefeitos

Embora estejamos muito felizes com os excelentes resultados alcançados nesses 10 anos de TdB, temos que admitir que ainda fizemos muito pouco. Transformamos a vida de 23 mil jovens? Sim! Mas só isso não resolve o problema. Todos os dias, milhões de brasileiros sobrevivem com dores de dente (e tudo o que está relacionado a isso).

Um problema desse porte exige muito mais do que a dedicação e o esforço do trabalho de voluntários – por mais que esses já façam uma gigantesca diferença. Para mudar, é imprescindível que o poder público acorde para a triste realidade da saúde bucal brasileira.

E essa mudança tem que começar por nós, que sentimos na pele os dramas deste país de desdentados. É nossa missão transformar a percepção da sociedade sobre a questão da saúde bucal, promovendo soluções de acesso a tratamentos odontológicos. Nós precisamos influenciar e mudar políticas públicas para agir em larga escala.

2012 é ano de eleições municipais. Pensando nisso, estamos propondo uma grande mobilização para esse ano. Essa é a hora perfeita para agirmos.

Queremos abordar diretamente os candidatos a prefeito de todo o Brasil, propondo um pacto em favor da saúde bucal. A ideia é apresentar um termo de compromisso a estes candidatos de modo a comprometê-los moralmente a dar uma atenção pormenorizada à saúde bucal, particularmente ao tratamento curativo, e a sancionar e implementar projetos de lei que facilitem o acesso da população à Odontologia.

Para tal, precisamos tratar a todos com máxima imparcialidade: mesmo que, num determinado município, um candidato já se coloque como amplo favorito, a TdB deve apresentar o documento a todos os interessados. Assim, independente de quem ganhe, teremos um compromisso assinado.

Seu trabalho é entrar em contato com os candidatos e seus assessores e garantir a assinatura do termo. Como este documento não tem um caráter jurídico, é necessário que a sua assinatura seja fotografada, de forma a reforçar o compromisso. É bom garantir a presença da imprensa local para cobertura do evento, o que aumentará a sua repercussão.

 

Para baixar o termo de compromisso, clique aqui.

 

 

TdB e as políticas públicas

Há alguns anos a TdB vem tentando impactar políticas públicas, ampliando o acesso da população à saúde bucal. Alguns municípios, inclusive, já estão mobilizados, com discussões avançadas sobre a inclusão do kit de higiene bucal (pasta, escova e fio) em farmácias básicas/postos de saúde e nas cestas básicas, e concessão de incentivo fiscal a dentistas que realizam tratamento de caráter social à população de baixa renda.

Para aumentar o alcance dessas ações, a partir de março o trabalho na área de políticas públicas passou a ser centralizado numa só pessoa da TdB, Vinicius Cione. Esta iniciativa visa ampliar o nosso foco de atuação para além do trabalho curativo desenvolvido pelos Dentistas do Bem.

Você, que se interessou em promover o Pacto dos Prefeitos na sua cidade, entre em contato com ele pelo telefone (11) 5084-7276 ou pelo email vinicius@turmadobem.org.br. Ele dará toda assessoria para que você faça a mobilização em seu município.