16
abr
2012

Atari ou Odissey? Como escolhas são difíceis…

 

Atari ou Odissey? Como escolhas são difíceis…

A década de 80 foi talvez a mais rica em termos de novidades… antes dela as mudanças eram lentas, o mundo não nos apresentava tantas opções de consumo e, quando elas vinham, duravam anos. O tempo passava mais lentamente. Mas, nos anos 80 surgem mudanças em praticamente todos os setores mercadológicos: nas artes (música, cinema, literatura), nas vestimentas, no modo de falar, na política, na tecnologia…

Lembro-me como se fosse hoje da primeira vez que vi um Atari. Já existia um outro antes, o telejogo (um pininho de cada lado da tela que subia e descia com uma bolinha quadrada imitando um jogo de tênis), mas era bem ruim… mesmo como novidade, e olha que nossa adrenalina ia à mil com aquilo! Já o Atari era como se eu estivesse dentro do desenho dos Jetsons (para quem nunca viu entra no YouTube), o futuro havia chegado finalmente! River Raid, Enduro, Pac Man, Moon Patrol e assim ia a lista dos jogos mais emocionantes do mundo!

Bom, eu não fui um dos primeiros a ter o jogo. Naquela época, criança tinha que “lutar” um pouco para ter as coisas e em minha casa isto não era diferente. E acho até que minha luta tinha que ser ainda maior do que a dos meus amigos. Ou será que eles também sentiam o mesmo?

Seja como for, ou como era, eu suplicava todos os dias pelo vídeo game, até que em meados de outubro, com o dia das crianças se aproximando, meu pai me disse: “Filho, saiu um novo vídeo game!” (naquela época eram os pais que davam as notícias sobre as novidades… hoje meu filho de 11 anos é quem me deixa atualizado). E continuou: “Chama-se Odissey! Ele é como o Atari, mas ainda tem 4 controles e possui um teclado alfanumérico com teclas de contato, você quer o Atari ou o Odissey?”

Pela primeira vez eu teria que fazer uma escolha que poderia mudar a minha vida… pelo menos nos próximos dias na escola. Vocês conseguem compreender a extensão do problema? O tamanho da responsabilidade de minha escolha? Escolher o Atari significaria entrar para a seleta turma dos que possuíam o brinquedo mais maneiro do momento! Por outro lado, escolher o Odissey poderia ser um diferencial, ser o único a ter o primeiro Odissey! Será que o Odissey seria melhor que o Atari? E se fosse? Ou será que o Odissey seria um fiasco? Ganhar os dois estava fora de cogitação. Na hora não consegui responder nada para meu pai e perdi algumas primeiras horas de sono de alguns dias pensando e pensando.

Na verdade, era um enigma sem solução… como seria bom se alguém pudesse fazer esta escolha para mim…

Nossa vida é assim! E empreender é fazer escolhas diárias. Em nosso dia-a-dia no Altera, vemos que o maior empecilho dos negócios são os próprios empreendedores e suas dificuldades em tomar decisões… pois não conseguem viver com o malefício que qualquer perda carrega… pois ao escolhermos algo, abrimos mão de outras possibilidades, de outros caminhos e de todas as coisas boas que poderiam ser derivadas deles… escolhas são realizadas sob incertezas! Mudo de lugar? Coloco mais profissionais em minha clínica? Contrato esta moça? Troco de marca? Tantas escolhas…

Naquele dia meu pai foi meu consultor e conversou comigo. Com calma, colocou seu ponto de vista, disse que sabia da dificuldade que eu estava tendo, mas que ficar sofrendo não adiantaria nada. Assim, me deu uma forma de definir: propôs que colocasse em uma folha todas as vantagens que eu teria ao escolher o Atari e em outra folha as de escolher o Odissey… que depois pontuasse cada item de acordo com sua importância para mim e que escolhesse aquele que no final tivesse maior pontuação.

Mas antes que eu começasse a fazer isto me perguntou: “Filho, nas férias deste ano você quer ir para aquela praia em que sempre vamos e que você adora, ou quer uma conhecer uma praia nova?” e eu respondi: “Uma praia nova!”. Ele falou, “Então você já sabe qual o vídeo game que te fará mais feliz!”. Ele estava certo… sempre gostei de trilhar caminhos em que as pessoas ainda não haviam trilhado. Escolhi o Odissey! O Atari era melhor… mas eu podia escolher em qual casa de amigo eu ia jogar… todos tinham o Atari. Mas quando queríamos jogar Odissey, íamos para casa. Virei notícia! E se isto é bom para um menino, imagine para o seu negócio!

Boas escolhas.

Ricardo Lenzi
Consultor de Gestão e Marketing em Saúde,
Sócio-Proprietário do Altera e parceiro da TdB



13
abr
2012

“Os invisíveis”

 

“Os invisíveis”

Até parece título de desenho da Pixar! Mas a reflexão que vamos fazer não se refere a super poderes ou super heróis.

Ser invisível, no conceito de Gilberto Dimenstein, é não ser notado, não pertencer a nenhuma tribo, é sentir-se não ouvido mesmo após gritos desesperados de pedido de ajuda.

Quando o jornalista da Folha de São Paulo fez anotaçōes relativas aos anos 1970, ele se incomodou com o silêncio das meninas virgens que eram leiloadas em prostíbulos no agreste brasileiro. Ao visitar os anos 1980, ele conheceu a solidão dos brasileiros que se mudaram para New York em busca de uma vida sem preconceitos, mas encontraram o isolamento e a saudade. Quando visitou a cracolândia, descobriu que os meninos, traficantes-viciados não posavam para fotografia para não serem “apagados”, definitivamente, por um gatilho: precisavam ficar invisíveis…

Nestas andanças pelas triagens da Tdb, conheci a situação de vida nas casas-abrigo, onde um Tutor se responsabiliza judicialmente por aqueles jovens que precisam ficar escondidos de seus próprios familiares pelos riscos que correm de espancamento, abuso sexual e outras histórias absurdas! Lembro-me de um garoto que havia chegado lá naquela semana, cujo relato me emocionou: “Tio, eu sou de Embu, não conheci minha mãe, morei com meu pai até o ano passado, quando ele morreu. Depois, fui morar com meu avô, que pouco tempo depois também se foi. Eu não tinha para onde ir e fui morar na rua, até que me trouxeram para cá! Tio, o senhor vai colocar aparelho em mim?!!”

Essas crianças nos desmontam emocionalmente, e temos que nos recompor para continuar o trabalho. Tal qual uma dona de casa se apressa para colocar os objetos bagunçados no lugar ao receber uma visita surpresa, nós juntamos os pedaços dos sentimentos há pouco caídos, damos aquela risadinha forçada e falamos: “acho que sim, vamos verificar se tem uma vaga para você e talvez você seja chamado!”

Este menino e outras muitas crianças querem se tornar visíveis; querem pertencer à tribo dos que usam aparelho ortodôntico; elas querem ser incluídas e destacadas de alguma forma. Todos nós temos o instinto de visibilidade!

Quando apoiamos os indivíduos em processos educativos reconstruímos a vida deles e a de uma sociedade. A Maloquinha, na cidade de São Paulo, já foi uma comunidade violenta. O investimento em educação musical e a organização transformaram-na numa Escola de Samba que mudou a qualidade de vida do bairro: isso é a visibilidade transformando… Quando dizem que no Brasil tudo acaba em samba, eu discordo e afirmo que tudo começa com o samba!

Se eu pudesse mudar o título deste artigo, eu colocaria: “Os visíveis com super poderes para transformar o Mundo!” Mas não posso. Há, ainda, muitos invisíveis precisando de nós e aguardando serem triados e descobertos!

 

Osvaldo Magro Filho
Coordenador e DENTISTA DO BEM de Araçatuba/SP



12
abr
2012

Um novo de alma velha

por Luiz Gustavo Oliveira
(coordenador voluntário de Teresina/PI)

 

Ainda ontem, recebi uma carta de um velho amigo velho pra quem também sempre escrevo as minhas. Sim. Ainda uso cartas para me comunicar. Não haveria outra forma com este amigo ancião que rejeita a objetividade moderna e hipócrita do email e detesta, assim como eu, a chatice do debate das idéias pelo fio do telefone. Em pleno século XXI, sinto-me pertencer ao XVIII.

Segundo outro amigo bem mais moço, o notável Dr. Daniel Siqueira, sou dado às coisas velhas (no sentido de antigas, de idade avançada), especialmente os amigos. Por suas contas, a média de idade dos meus amigos mais chegados bate por baixo os sessenta anos. Sempre foi o mestre do exagero, o tal Dr. Daniel Siqueira.

Minha Tia Leopoldina, uma segunda mãe e profunda conhecedora dos recônditos da minha alma, afirma categoricamente que esta já está pra mais de cem anos. Daí, segundo ela, o magnetismo, a atração pelas cousas que atravessam os séculos. Como a palavra cousas, já caída em desuso, mas usada por ela frequentemente em seu vocabulário cotidiano e antigo.

Mas voltemos às cartas.

Pobre das gerações futuras que não receberão uma carta escrita a punho. Que jamais sentirão o leve prazer de, inesperadamente, encontrar uma carta na caixa de correio. Que não experimentarão a mistura de curiosidade e palpitação cardíaca que antecedem a defloração do envelope. Pra quem gosta disso.

Sim! Abrir o envelope é quase como despir a namoradinha antes do desvirginamento. Pra quem gosta disso, é óbvio.

O email assassinou a carta. O Twiter, o MSN, o Facebook são os facínoras do papel de carta. Pobre das minhas filhas que não colecionarão papéis de carta.

Mas há ainda os pobres diabos como eu que resistem. Como meu amigo ancião que não aderiu à internet. Como um Padre Florêncio. Não! O Padre Florêncio só manda e-mails hoje em dia. Mas mandou muitas cartas. Tenho algumas. Como um Roberto de Patrício que não só manda cartas como as perfuma com Azarro. Como um Seu João Claudino, que manda cartas lindas sempre com um papel timbrado próprio e datilografadas. Cartas memoráveis pois tem uma equipe só para escrevê-las e lhes entregá-las no ponto de assinar. Como um José Ribamar Garcia, advogado piauiense brilhante que mora no Rio e que ainda escreve cartas. Como um João Cláudio Moreno que me envia cartas nos meus aniversários ou simplesmente, quando precisa confessar algo. Letras que chegam num papel de carta pessoal, timbrado com seu monograma preto em baixo relevo, JCM. Papel cartão de gramatura superior que traz consigo mais respeito que o operário papel ofício. E ainda, de modo mais peculiar, não as envia pelos Correios, mas pelo Ronaldo, seu chofer com porte de soldado de cavalaria. Acho que foi dele que imitei o meu papel de carta. Timbrado com minhas iniciais, mas que não são em baixo relevo e nem se entrelaçam como as dele. Coisa de artista. Pena que não tenho chofer. Se não, o imitava também nisso.

Meses atrás, minha mulher, minhas filhas, a babá e meu cunhado viajaram por três semanas completas. Mandei uma carta para cada qual. Cinco cartas. Não, seis! Mandei também para a Tia Pepêta, que os hospedou em Salvador.

Pois vejam que me ligaram tomados de uma surpresa esfuziante. Receberam uma carta cada qual. Que coisa inédita. Uma carta! Ninguém mais recebe cartas. Ninguem mais envia cartas. O email, o Twiter, o Facebook…

As pequenas não entenderam nada. Minha mulher já está acostumada com minhas esquisitices. Deve me achar piegas, antiquado ou muito romântico. Que é piegas para os tempos de hoje. Meu cunhado de doze anos deve ter me achado o mais velho entre os velhos que ele conhece. Marleide, a babá pontuou com um singelo agradecimento. E Tia Pepêta também deve ter me achado mais velho que as trinta e três primaveras que carrego.

Pois bem. Voltemos à carta de meu amigo nascido em 1931 antes que isso fique mais comprido do que já está.

Eis que nela, o velhinho me pedia ou exigia que eu me definisse sobre a Educação Sexual. Sou contra ou a favor? Bem. Vou ser o mais taxativo possível: – Sou contra. E, para evitar qualquer dúvida, ou sofisma, direi com a maior ênfase: – “Absolutamente contra.” Não sei se me entendem. A Educação Sexual devia ser dada por um veterinário a bezerros, cabritos, bodes, preás, vira-latas e gatos vadios. No ser humano, sexo é amor. Portanto, os meninos, as meninas deviam ser preparados, educados para o amor. Se meu leitor progressista ainda não está satisfeito, direi algo mais. O homem é triste por que, um dia, separou o Sexo do Amor. Nada mais vil do que o desejo sem amor. A partir do momento da separação, começou um processo de aviltamento que ainda não chegou ao fim. E, assim, o homem tornou-se um impotente do sentimento e, portanto, o anti-homem, a antipessoa.

E dessa forma, respondi em outra carta, meu amigo octogenário. À altura do velho que sou. Ou por outra, do novo de alma velha que sou.

 



11
abr
2012

Descompromisso

 

Descompromisso

Fala-se em muitas mazelas que afligem o mundo moderno. Doenças sem cura, terremotos, tsunamis, furacões, desastres ambientais. Eu aproveito para falar de uma grande delas. Aquela que tem atingido impiedosamente todos os segmentos e causado traumas a pessoas que esperam o cumprimento das obrigações por parte dos que deveriam honrar os seus deveres: a falta de compromisso.

É incrível como hoje em dia as pessoas gostam menos de compromisso. Geralmente, o desapego às obrigações se torna mais comum nesse universo em que vivemos e convivemos. Ninguém é mais engajado em atividades que tomem o tempo, ou seja, duradouras. E isso se reflete nas relações humanas. Estar comprometido com algo não é para qualquer um. Por quê?

Porque estar comprometido toma tempo, dá trabalho e é difícil. É necessário responsabilidade. E não só com o trabalho ou carreira, mas também ter responsabilidade com as pessoas. Certa é a frase: “todos querem emprego, mas poucos querem trabalho”.

Estou vivenciando na minha faculdade a falta de materiais para as clínicas, o que acarreta uma fila de espera gigante, falta de esperança dos pacientes em serem atendidos. Não cabe aos professores arcar com os custos e a nós, alunos, cabe reivindicar para que verba chegue ao seu destino. Tal fato comprova a falta de compromisso do Estado em relação à saúde. Isto é apenas um caso especifico.

Amplificando a visão, vemos a toda hora em matérias jornalísticas médicos que não dão a devida assistência a seus pacientes, professores que não comparecem às aulas, ou – quando comparecem – não exercem corretamente sua função, pais que não acompanham adequadamente seus filhos, dívidas que não são saldadas e, assim, por diante. A lista seria extensa, mas as citadas já nos servem de reflexão.

E só para finalizar: ninguém chega aos Alpes se não escalar.

 

Cleferson Ferreira
ESTUDANTE DO BEM de Olinda/PE



10
abr
2012

Tempos de Campanha…

 

 

Tempos de Campanha…

Estive em Campo Grande/MS há sete dias, em reunião da Federação Interestadual dos Odontologistas, e vi uma cidade organizada com uma Odontologia no SUS de dar inveja, dentistas mobilizados e participativos em defesa de sua causa, boa base salarial (não a ideal, mas razoável), plantões bem remunerados e concurso público como prática de contratação…

Na Câmara de vereadores estavam 300 dentistas para ver uma estagiária do Sr. Dr. Pucca falar do SUS, de suas realizações desde 2004 até hoje, e de novos projetos… Saúde nas ruas, com equipe multidisciplinar, médico, psicólogo, terapeuta, enfermeiro, TSB…

Não… não esqueci o dentista! É que nesse atendimento ao pessoal que mora nas ruas a odontologia só vai ser acompanhada pelo técnico.

Agora, imaginem a piada, excluídos de um projeto que se direciona à saúde bucal, dá pra entender?

Ah, vamos esquecer isso! Tem outro projeto melhor a ser lançado nesse ano: o Barco da Saúde Bucal. Ele vai atender toda a comunidade ribeirinha… Algo meio familiar, vocês não acham? A última é que resolveram realmente assumir a responsabilidade da tutela ao índio, lembraram que ele tem boca e criaram a Secretaria de Saúde Indígena, extinta Funasa… com as mesmas pessoas… só, e somente isso, mudaram o nome (então, provavelmente a estorinha continuará a mesma…)!

No final das contas, observando tudo e todos, vejo que, depois de quase 6 anos no Dentista do bem, estamos bem à frente de toda essa movimentação equivocada da Odontologia.

 

Daiz Nunes
Coordenadora e DENTISTA DO BEM de Macapá/AP



09
abr
2012

Retratos de crianças do êxodo

Retratos de crianças do êxodo

Estou a pensar sobre as vidas atrás dos rostos retratados pelo reconhecido fotógrafo Sebastião Salgado… e, como dentista, adquiri o hábito quase instantâneo de observar sorrisos.

Neste sensível e impactante trabalho, foi captada a vulnerabilidade emocional destas crianças que fazem parte do contingente alarmante de necessitados por saúde, educação e moradia, segundo os números assustadores relatados anualmente pela UNICEF.

Neste livro, das 90 crianças de diferentes regiões da Terra, apenas 4 aparecem com um sorriso aberto, poucos exibem um sorriso, embora com os lábios contidos, e a maioria não sorri.

O sorriso, pelo qual me apaixonei, e que ocupa uma parede da recepção de meu consultório, é o de uma criança do campo de refugiados bósnios do enclave de Bihac na Croácia, em 1995 (pagina 26) . Pouco espontâneo, com as mãos entrecruzadas, ele reflete certa timidez , insegurança e desamparo.

 

 

Diariamente, quando passo pelo quadro, lembro- me que podemos oferecer motivos para que um jovem se sinta acolhido por um gesto humanitário, sendo respeitado.

 

Sugestão de leitura

1- Retratos de Crianças do Exodo- Sebastião Salgado Companhia das Letras

 

 

Vanessa Leal Tavares Barbosa
Coordenadora e DENTISTA DO BEM de Vitória/ES



05
abr
2012

Cadeira odontológica salva a vida de dentista

por José Henrique Sironi
(coordenador voluntário de Laranjeiras do Sul/PR)

 

Vocês já ouviram histórias de pessoas que foram salvas de um desastre por algum objeto insignificante que portavam? Dia desses aconteceu, até passou na TV. Um motorista de ônibus foi assaltado e após ter entregado seus pertences, devido a um movimento brusco, os assaltantes se assustaram e passaram fogo nele. Um dos tiros acertou o trabalhador que não morreu porque o projétil desviou em uma caneta que estava no bolso da camisa. Os ladrões fugiram deixando para trás o homem. Pouco se importaram se era pai de família e se iria fazer falta para alguém.

Comigo aconteceu algo semelhante. Fui salvo pela cadeira odontológica.

Tenho meu consultório particular, mas também atendo para a Prefeitura.

Quando escolhi trabalhar para o SUS, entrei com a idéia de que poderia mudar a percepção das pessoas em relação ao funcionalismo público.

Sempre encarei o serviço de maneira comprometida. Atendo bem as pessoas, com sorriso no rosto e dando a atenção necessária. Pergunto para o paciente o que ele precisa, não vou fazendo o procedimento mais fácil. De maneira alguma estou lá só pra cumprir tabela.

Acredito que essa atenção diferenciada tenha sido entendida de maneira errada por um cidadão, o que me rendeu um tremendo susto.

Segue o acontecido:

– Putz, Ju !!! A gente esqueceu a extensão de novo!

Não tivemos alternativa a não ser empurrar a cadeira odontológica bem pertinho da pia, pois ali se encontrava a tomada mais próxima.

Já fazia três dias que estávamos atendendo na nova unidade de saúde. Há seis anos eu já tinha trabalhado lá. Um bairro da periferia da minha cidade.

Na verdade foi meu primeiro local de trabalho desde quando entrei no quadro de funcionários da prefeitura.  Talvez isso justificasse certa paixão por aquele lugar.

A sala clínica não tinha nada demais, a não ser as janelas. Eu gostava daquelas janelas. Duas. Verdes e amplas. Deslizavam com dificuldade tanto no abrir quanto no fechar, mas o esforço era recompensado pelo vento agradável que entrava e trazia um perfume dos produtos de limpeza que as funcionárias da escola usavam pra deixar as calçadas limpas. Sim, era uma unidade de saúde dentro de uma escola do ensino fundamental. Parecia loucura. Criançada correndo, gritos no intervalo de aulas. Tinha um professor da sala de cima que usava uma técnica de alfabetização a qual eu já tinha decorado. Tudo isso entrava pela amplitude da minha janela.

Seis anos se passaram e eu retornei.

Naquele mesmo dia comentara com minha companheira de trabalho:

– Você vai gostar daqui! É calmo e o povo é “gente boa”. Nunca enfrentei nenhum problema!

Ô, língua!!! Foi eu terminar de falar invade o consultório um cara muito mal encarado gritando e partindo pra cima de mim. O cara estava totalmente alterado.

Primeiramente pensei que fosse um paciente descontente por esperar, mas logo em seguida entrou a moça a qual havíamos acabado de atender. O homem era marido dela… e estava tomado pelo ciúme. Quem sabe ela tenha elogiado o atendimento, sei lá…

Com a mão direita ele agarrou a moça pelos cabelos enquanto tentava me pegar com a esquerda (fora tudo aquilo que ele gritava).

O que me salvou? A cadeira odontológica, que estava tão encostada na pia, por falta da extensão, que não permitia a passagem do agressor.

Será que ele está armado? Será que ele vai me alcançar? O que passa pela cabeça de um louco desses? Gente! Foi uma cena horrível!!! Uma pessoa dessas mata só pra ver o tombo. Ele provocava. Queria que eu o enfrentasse. Tinha “sangue nos olhos”.

E eu lá… só esperando ele se acalmar.

Devido à gritaria as crianças começaram a sair na janela e alguns funcionários que estavam por ali se aproximaram. A polícia foi chamada e o machão fugiu, sem antes quebrar a vidraça do consultório e agredir a esposa com socos e pontapés em frente a vários professores e alunos que assistiam impotentes. Por que impotentes? Por medo! Eu não conhecia o figura, mas os moradores locais conheciam e depois me contaram: O homem estava na condicional. Está sendo investigado por homicídio. Foi preso várias vezes e no mesmo dia tinha atentado contra a vida de terceiros portando uma faca. O cara é altamente perigoso.

Foi um tremendo susto… E se ele voltar armado pra acertar as contas?…eu tentava entender o que o tinha levado a agir daquela forma.

E daí, você acha que eu mudei meu jeito de atender as pessoas por causa desse fato. Claro que não. Esse acontecimento isolado não pode se sobrepor ao carinho que devemos ter com o nosso próximo. Independente de ser paciente do SUS, beneficiário ou particular, todos devem ser tratados com respeito, atenção e dignidade. Eu escolhi ser voluntário da TdB para servir e não para ser servido. Dar uma oportunidade para aqueles que nunca tiveram a chance de um bom atendimento. Dificuldades como essa a gente vai passar, mas não devemos desanimar, pelo contrário, vamos tentar pagar o mal com o bem. Continuo firme, atendendo a mesma comunidade e com laços mais fortalecidos.

Em relação à extensão de luz: continuo esquecendo, diariamente, só por precaução.



04
abr
2012

Você tem experiência?!?

por Marília Martins
(coordenadora voluntária de Guarulhos/SP)

 

ODEIO RECEBER E-MAIL… essa é a grande verdade. Mas calma, vou me explicar!

Odeio e-mails em que sou apenas mais uma na enorme lista de endereços. Pode ser meu lado antissocial ou algum tipo de egocentrismo, ainda não sei, mas deixo isso para minha terapeuta descobrir. Ok, se for um grupinho pequeno de amigos falando besteiras… ADORO!!! E-mails profissionais ou da Tdb não entram nessa odiada lista, óbvio. O que eu detesto são as correntes religiosas ou que relacionam a sorte do indivíduo, apresentações no power point com mensagens bonitinhas e musiquinhas melosas, fotos de lugares lindíssimos em apresentações gigantescas (com a mesma musiquinha melosa), piadas sem-graça e tudo aquilo que não é dedicado à você exclusivamente.

Mas em um raro dia de extremo bom humor, me deparei com um texto que vou copiar e colar para vocês. Sim, Ctrl + C e Ctrl + V. Não sei quem escreveu, e se soubesse daria todo o mérito deste post a ele. (Amigo, se você ler esse singelo texto que escrevo, saiba que estou te aplaudindo de pé e sempre que você escrever qualquer coisa, por maior que seja a tolice, mande uma cópia para o meu endereço eletrônico, por favor!!!)

Sem mais delongas, já que o texto é grande pra caramba; leiam até o fim, releiam até o fim e reflitam o quanto conseguirem. Esse texto foi escrito para o processo seletivo de uma grande montadora de carros onde a pergunta era a seguinte: “Você tem experiência?”

“Já fiz cosquinha na minha irmã pra ela parar de chorar.
Já me queimei brincando com vela.
Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto.
Já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo.
Já quis ser astronauta, violonista, mágico, caçador e trapezista.
Já me escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora.
Já passei trote por telefone.
Já tomei banho de chuva e acabei me viciando.
Já roubei beijo.
Já confundi sentimentos.
Peguei atalho errado e continuei andando pelo desconhecido.
Já raspei o fundo da panela de doce.
Já me cortei fazendo a barba apressado.
Já chorei ouvindo música no ônibus.
Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais difíceis de se esquecer.
Já subi escondido no telhado pra tentar pegar estrelas.
Já subi em árvore pra roubar fruta.
Já caí da escada de bunda.
Já fiz juras eternas.
Já escrevi no muro da escola.
Já chorei sentado no chão do banheiro.
Já fugi de casa pra sempre, e voltei no outro instante.
Já corri pra não deixar alguém chorando.
Já fiquei sozinho no meio de mil pessoas sentindo falta de uma só.
Já vi pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado.
Já me joguei na piscina sem vontade de voltar.
Já bebi uísque até sentir dormente os meus lábios.
Já olhei a cidade de cima e mesmo assim não encontrei meu lugar.
Já senti medo do escuro, já tremi de nervoso.
Já quase morri de amor, mas renasci novamente pra ver o sorriso de alguém especial.
Já acordei no meio da noite e fiquei com medo de levantar.
Já apostei em correr descalço na rua.
Já gritei de felicidade.
Já roubei rosas num jardim particular.
Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas sempre era um “para sempre” pela metade.
Já deitei na grama de madrugada e vi a Lua virar Sol.
Já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.
Foram tantas coisas feitas, momentos fotografados pelas lentes da emoção, guardados num baú, chamado coração.
E agora um formulário me interroga, me encosta na parede e grita:
Qual é a sua experiência?.
Essa pergunta ecoa no meu cérebro: experiência…experiência…
Será que ser “plantador de sorrisos” é uma boa experiência?
Sonhos!!! Talvez eles não saibam ainda colher sonhos!
Agora gostaria de indagar uma pequena coisa para quem formulou esta pergunta:
Experiência?
Quem a tem, se a todo o momento tudo se renova?”

Com apenas 28 anos me considero uma pessoa experiente, visto que realizei 100% das atitudes acima (salvo algumas modificações).

E você, qual é a sua experiência NA vida?!?



03
abr
2012

Quando a dor é do dentista!

 

Quando a dor é do dentista!

Desde meados de 2011 comecei a sentir um desconforto na perna esquerda. Começou com um formigamento, depois uma dorzinha chata… depois muita dor!! Procurei um Geriatra (podem rir!), fiz uma bateria de exames e recebi este diagnóstico : Você está com síndrome do piriforme!

Ahn?? Isto é grave? Tem cura?

“A síndrome do piriforme é uma síndrome neuromuscular que envolve a irritação, encarceramento ou compressão do nervo ciático (raízes L4, L5, S1,S2,S3) pelo músculo piriforme, o qual encontra-se em espasmo ou tensão. A dor pode ocorrer devido ao déficit do aporte sangüíneo local e do espasmo ou tensão muscular mantida em determinada postura. O desconforto, caracterizado por formigamento, agulhadas, choques, queimação ou pontadas, localiza-se normalmente na face postero-lateral da coxa, podendo algumas vezes ir até o pé.”

Resumo da história: para “melhorar” da tal síndrome preciso:

RPG – fisioterapia;

ACUPUNTURA – ajuda desinflamar o piriforme;

PILATES – para fortalecer o centro de força do corpo (quadril) e alongamento;

CAMINHADAS- 3 vezes por semana (isto é imprescindível);

MEDICAÇÃO – relaxante muscular e compressas com gelo no local;

TRABALHO- marcar os pacientes em intervalos maiores para evitar ficar sentada longas horas.

Tudo isto custa tempo e dinheiro!

Será que nós dentistas, estamos preparados psicologicamente e financeiramente para enfrentar situações como esta?
Temos um bom plano de saúde? Temos um plano “B” que garanta nosso sustento e de nossas famílias se precisarmos nos afastar do consultório? Estamos cuidando do nosso corpo para suportar 30, 35 anos ou mais de trabalho?

A Odontologia está entre as profissões mais expostas às doenças de caráter ocupacional e os cirurgiões dentistas, entre os primeiros em afastamentos do trabalho por incapacidade temporária ou permanente.

Precisamos pensar sobre isto….

Ah! Amigos fiquem tranquilos, já estou bem melhor!

Angemerli Teodoro
Coordenadora e DENTISTA DO BEM de Ourinhos/SP



02
abr
2012

A Órfã

 

A Órfã

Um dia, no auge de meus trinta e poucos anos, com três crianças pequenas, consultório, marido, casa, empregada, balé, futebol, natação etc. etc… tudo isto e mais um pouco pra administrar, lendo um livro de Affonso Romano de Sant’Anna, enquanto esperava os filhos saírem da natação, me deparei com a seguinte frase:

“Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos”.

Eu pensei: Isto é mera ficção, não tenho tempo pra nada, quanto mais pra me sentir órfã.

Mas o tempo passa… e como dizia o autor: os filhos não crescem todos os dias, de igual maneira, crescem de repente.

Passou o tempo do balé, da natação, do futebol etc.. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas.

E eu pensei: Que autor realista, eu fiquei ORFÃ.

Procurei um trabalho voluntário para sair da orfandade.

Encontrei a Turma do Bem.

Que felicidade, não sou mais órfã. Voltaram as emoções, os agitos de crianças e, o mais importante de tudo: A ALEGRIA DE DEVOLVER SORRISOS.

Pode existir algo melhor?

 

Selma Rocha
Coordenadora e DENTISTA DO BEM de Curitiba/PR