17
set
2014

1984

por Luiz Roberto Scott, dentista do bem de São Paulo/SP

 

Winston escreveu em seu diário:

“Enquanto eles não se conscientizarem, não serão rebeldes autênticos e, enquanto não se rebelarem, não tem como se conscientizar.”

Winston é o protagonista de 1984 (Cia. das Letras), de George Orwell.  Uma sátira sombria e assustadora de qualquer regime totalitário e seus efeitos nocivos. A obra ainda se impõe como uma poderosa reflexão ficcional sobre as consequências da passividade da população.

“[...]Nasciam, cresciam pelas sarjetas, começavam a trabalhar aos doze anos, aos trinta chegavam à meia idade, em geral morriam aos sessenta. Trabalho físico pesado, cuidados com a casa e os filhos, disputas menores com os vizinhos, filmes, futebol, cerveja e, antes de mais nada, jogos de azar, preenchiam o horizonte de suas mentes. Não era difícil mantê-los sob controle. [...] Deles só se exigia um patriotismo primitivo, que podia ser invocado sempre que fosse necessário fazê-los aceitar horários de trabalho mais longos ou rações mais reduzidas. [...]”

Editado pela primeira vez em 1949, com um titulo futurista, que já passa há 30 anos, continua soando atual e cotidiano. Ainda mais em época de eleições… Vale muito a pena (re)ler.



11
ago
2014

José, João, Salomão e outros…

por Luiz Roberto Scott, dentista do bem de São Paulo/SP

 

É conhecida a história de Salomão que, perante duas mulheres que se diziam mãe da mesma criança, pediu a espada para dividir a criança e satisfazer as duas. Então, uma delas disse: “Se for assim, pode deixar com ela!” E Salomão mandou lhe entregar a criança. A justificativa: só o amor de mãe se absteria da presença da criança em favor de sua vida. Mas, e se a “falsa” mãe estivesse arrependida frente à consequência da mentira? Será que Salomão foi realmente justo? Será que a justiça foi feita de verdade?

A justiça é uma das convenções sociais mais complexas de se estabelecer. Claro que, para os crimes existe o Código Penal. Há também a Constituição e as inumeráveis legislações específicas: O código de trânsito, o código de ética, o estatuto da criança… Mas a justiça não pode ser reduzida ao mundo das leis. Ela deve transcender o Direito, como o entendemos – a tríade juiz, acusação e defesa… E deve se referir, no final, àquilo que é justo – ou não.

Partindo desse pressuposto, faço algumas provocações: O nosso cotidiano é justo? Se a resposta for não, como fazer para que isso aconteça? Como precisar o que é justo ou não? E, mais complicado ainda, como garantir que todo mundo tenha acesso a uma mesma Justiça (com “J” maiúsculo, mesmo)?

Um mundo de oportunidades e menos desigualdades é o sonho da maioria. Porém, nem todos estão aptos, física ou mentalmente, para as mesmas oportunidades. Pensar em Justiça pela equivalência é desprezar as habilidades e peculiaridades das pessoas. Pela diferenciação, é marginalizar uns e beneficiar outros.

Um exemplo: Se José consegue fazer uma limonada com apenas um limão e João precisa de dois limões para conseguir a mesma limonada, Justiça, pela ótica da limonada (consequência; resultado) seria que João tivesse dois limões e José tivesse um… mas, se olhada pelo lado do limoeiro (oportunidade), Justiça seria um para cada… e Francisco também poderia ter um. Qual dos pontos de vista é o mais correto? Difícil escolher…

Agora, um fato é inegável: o mais justo seria que João aprendesse a fazer limonada como José… assim, os dois teriam o mesmo resultado. E, apesar de não podermos desconsiderar o fato de que não basta criar oportunidades, é preciso estar apto a reconhecer e aproveitá-las, no final das contas, a Justiça é isso: a busca constante pelo que é mais justo. Ao chegarmos a esse denominador, encontramos, também, um jeito mais humano de viver em sociedade… de coexistirmos em grupo… de sermos tratados igualmente, ao mesmo tempo em que nossas diferenças são respeitadas. Justo, não?



21
jul
2014

O Bem e o Mal

por Luiz Roberto Scott, dentista do bem de São Paulo/SP

 

Estamos vivendo um momento incomum de difusão de ideias e opiniões. Talvez porque o uso das redes sociais propulsione mais rapidamente e com um alcance muito maior o que poderia ser uma conversa informal, as “conversas de botequim” perderam fronteiras. Tecladas a quatro paredes, instantaneamente atingem os quatro cantos do mundo. Podemos “curtir” e compartilhar o que gostamos, o que nos faz BEM. Podemos criticar ou “deletar” o que  não gostamos, o que nos faz MAL. “Simples assim”, basta escolhermos a tecla.

O Maniqueísmo é uma forma de pensar simplista que divide o mundo em dois: o do Bem e o do Mal. O pensamento simplista nasce da intolerância ou do desconhecimento, seja das coisas ou das necessidades do outro. Também da pressa em entender e reagir frente ao que se apresenta complexo. O pensamento maniqueísta cria pares antagônicos do tipo: direita/esquerda, objetivo/subjetivo, reacionário/progressista, capitalista/comunista, branco/preto, etc. E dentre estes seleciona o Bem, tornando o outro o Mal. E como abominamos o Mal, consciente e inconscientemente acabamos conduzidos a atitudes extremistas.

Vejam nos Blogs de Reinaldo Azevedo e Leonardo Sakamoto, por exemplo. As contestações dos leitores raramente caem sobre o assunto, contra o argumento. De forma frequente, recaem sobre os argumentadores, os blogueiros. Em ataques pessoais, veementes e extremistas. Acabam contra os argumentadores e não contra os argumentos.  E isto não me parece uma evolução de conduta humana. Muito menos uma vontade de debater, e sim de abater.

Ora, o simples fato de eu não concordar com o que você pensa ou faz, não me coloca como seu inimigo. Mesmo porque se trata de uma situação, frente a outra posso até vir a concordar. O pensamento é dinâmico e amplia-se com o conhecimento, e assim as posturas podem ser mudadas. Como diria o Barão de Itararé, o problema não é mudar de ideia. O problema é não ter ideias para mudar.

Em tempo, a Turma do Bem é uma marca, um nome fantasia, assim como a Coca Cola. Não ser voluntário na Turma do Bem não torna a pessoa do mal. A não ser que voce acredite que a Coca-cola é feita de coca e de cola. Mas como eu disse, o pensamento é dinâmico, concorda?



18
jun
2014

Não há nada de Marx em ser elite

por Luiz Roberto Scott, dentista do bem de São Paulo/SP

 

Conceitualmente elite, do francês “élite”, significa escolhido. Pode designar, genericamente, um grupo hierarquicamente superior em instituições, grupos de trabalho e outras organizações. Em política, se refere à classe dominante – o que, no Brasil, tornou-se quase um xingamento.

Agora, me responda: que mal há em ser da elite?!

Quando busco um aprimoramento pessoal, em qualquer área de atuação, uma especialização que seja, acabo atingindo uma posição superior. De elite.

Quando escolho as melhores escolas para meus filhos, os cursos mais concorridos… idem!

Seleções de futebol são formadas pelas elites do futebol de cada país. A Copa do mundo reúne a elite das seleções.

Quando passo em um exame, com 85 candidatos por vaga. Concursos públicos ou não… Isto tudo é elite!

E não há nada de mal nisto. Pelo contrário, é demais! Requer esforço e dedicação. Requer aplicação, foco. O grande problema é a falta de oportunidades para que todo mundo tenha a chance de se tornar elite de alguma coisa.

Veja os meninos que atendemos no projeto Dentista do Bem, por exemplo. Quando resgatamos os seus sorrisos, estamos fazendo mais que isso. Estamos lhes dando chances. Ao trazê-los para a elite das pessoas que têm acesso a um tratamento odontológico digno, criamos uma oportunidade e proporcionamos uma transformação.

Em vez de combatermos as elites… e demonizá-las pelo simples fato de existirem, nós devemos, sim, procurar o melhor! E lutar para que os outros também tenham a oportunidade de fazê-lo.

 

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02
jun
2014

0,5%

por Luiz Roberto Scott, dentista do bem de São Paulo/SP

 

O que existe em comum entre Martin Luther King e Nathan Bedford Forrest? Felipe Camarão e Maurício de Nassau? Winston Churchill e Hitler? E mais, o que existe em comum entre eles e qualquer um de nós? O Código Genético, o genoma humano, idêntico em 99,5% dos casos.

Somos tão iguais e ao mesmo tempo tão distintos, com tantas particularidades, que só a tolerância para nos permitir o relacionamento interpessoal. O que é difícil por definição, pois só podemos tolerar aquilo que não nos agrada.

Mesmo assim precisamos dela, da forma mais ampla possível. A real virtude da tolerância é que ela conduz ao debate. Traz conhecimento, informação e colabora no crescimento do indivíduo. O debate fortalece as ideias e as relações, principalmente se for bem conduzido e concluído.

Claro, é preciso limites. Total tolerância é apatia. Nenhuma tolerância é fanatismo. E o contrapeso da tolerância é a moderação. Forças inversamente proporcionais, que em equilíbrio proporcionam relações harmônicas; ou melhor, suficientemente harmônicas.

Ambas variam, tanto de indivíduo para indivíduo, como no mesmo indivíduo diariamente. E sofrem interferências de outros fatores externos e internos.

Por isso, ao sentirmos estar no limite de alguma das duas, sugiro: sente-se confortavelmente, abra uma garrafa de um bom vinho e consuma com moderação. Ou de acordo com sua tolerância!

O mundo estaria melhor se os certos tivessem menos tolerância e os errados mais moderação.

 

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21
mai
2014

A Copa está chegando… Não importa o resultado, perdemos!

por Luiz Roberto Scott, dentista do bem de São Paulo/SP

 

 Fulecar :  v.i.
(Brasil) Perder, no jogo, todo o dinheiro
que se possuía ou que se transportava.

 

Em 1970, o escrete canarinho sagrou-se tricampeão mundial no México. Eu tinha onze anos e pude assistir àquela que foi a primeira Copa transmitida pela TV, ainda em preto e branco. E me encantar com o futebol nas narrações do lendário Geraldo José de Almeida.

Vivíamos uma fase turbulenta da ditadura militar, mas isto eu só vim descobrir mais tarde. Lembro-me de ver, em alguns lugares, os cartazes com fotos dos procurados. Isso me lembrava um pouco os filmes de cowboy.  Acho que naqueles anos o mundo era bidimensional. Havia o governo e os “comunistas”, esquerda ou direita. O muro de Berlim imaginariamente dividia o mundo entre o bem e o mal.

O governo Médici usou a vitória da seleção como propaganda de governo. Estávamos em pleno milagre brasileiro, período de grande crescimento econômico. Havia tortura e perseguição política, medo e frustração.  Mas no futebol éramos os melhores. O tricampeonato deu à seleção a posse definitiva da Taça Jules Rimet. Quanto orgulho! “A taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa…”

Em 1983, no entanto, a taça foi roubada na sede da CBF por Peralta, Barbudo e Bigode (nem os irmãos metralhas tinham estes nomes)…  e repassada a um argentino que vivia no Rio e fazia fundição de ouro roubado. Que vergonha, que desleixo histórico…

O caso só foi desvendado porque um arrombador de cofres negou-se a participar do crime por razões sentimentais… e depois acabou delatando o esquema.

De lá para cá, várias copas, jogadas emocionantes, espetaculares, tudo o que se espera repetir no Brasil. Mas, sinceramente, para mim não haverá emoção. Sinto-me cúmplice das mazelas e de tanta corrupção, dos desvios de dinheiro, do pouco caso com as verdadeiras necessidades nacionais… Não, não vai dar para vibrar. Se em 1970 fui um inocente útil para a propaganda do governo, apenas por ser um apaixonado pelo futebol, desta vez, aos 55 anos, não consigo ser tão apaixonado assim… Edu Krieger , talvez tenha conseguido resumir este sentimento…

 

 

Ah, o nome do arrombador de cofres: Antonio Setta, o Broa. Negou-se a participar do crime porque seu irmão morrera de enfarte na final da copa de 70… ele era o apaixonado pelo futebol. O Broa era ético!

 

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30
abr
2014

Companhia

por Luiz Roberto Scott, dentista do bem de São Paulo/SP

 

“Quando duas pessoas vêm andando na estrada, cada uma carregando
um pão, e trocam os pães quando se encontram, cada uma vai embora com
um pão. Mas, quando duas pessoas vêm andando na estrada, cada uma com
uma ideia, e ao se cruzarem trocam as ideias, cada uma vai embora
com duas ideias.” (ditado chinês)

 

Gosto muito de ler Mario Sergio Cortella e, principalmente, ouvi-lo em suas palestras. A sua forma didática, analítica e filosófica, partindo da etimologia das palavras, tem para mim um efeito hipnótico e admirável. Transcreverei aqui uma pequena parte de seu livro Qual é a tua obra(Ed. Vozes), que recomendo ler e reler. Nesta parte, ele fala sobre lideranças – e aqui cabe a nós utilizarmos mesmo em nossos projetos pessoais e administração de nossas vontades… enfim, a nossa obra.

…..

O nome que se dava à tripulação de um barco na Antiguidade latina, há 700 anos, no mundo no final da Idade Média, era companhia. No cerne da palavra está o pão que era o único alimento que durava, que sobrava sem estragar. Por isso, companhia era a expressão originada do latim da junção cum, pan, ia, que significa “vão com o mesmo pão”. Companhia , portanto, assumiu o sentido de “aqueles que repartem o pão”, assim como as expressões companheiro e companheira – aquele ou aquela que reparte com você o pão em direção ao futuro.

Liderança é uma virtude, e não um dom. E do ponto de vista filosófico, virtude é uma força intrínseca, assim como, a coragem, o destemor e a iniciativa. Tudo o que é virtual é força intrínseca. Por exemplo, a árvore está contida virtualmente em uma semente, portanto a semente é virtualmente uma árvore. Quando ela passa a ser árvore ela se atualiza. O virtual precisa ser atualizado ou realizado. Depende da circunstância e da disposição, juntar capacidade com a ocasião, a virtude e a sorte.

Líderes são homens e mulheres que ajudam indivíduos e equipes a fazerem a travessia rumo ao futuro. Atualmente, a necessidade não é estar partindo o tempo todo, mas sim estar preparado para partir. Como os líderes precisam ser companheiros e ter o outro como companheiro, cabe a eles cultivarem cinco competências essenciais: 1) abrir a mente - o líder deve ficar atento àquilo que muda e estar disposto a aprender; 2) elevar a equipe - o liderado percebe claramente quando você é capaz de, ao crescer, levá-lo junto; 3) recrear o espírito - as pessoas devem se sentir bem e ter alegria onde estão. Seriedade não é sinônimo de tristeza; tristeza é sinônimo de problema; 4) inovar a obra - liderar pressupõe a capacidade de se reinventar, de buscar novos métodos e soluções; 5) empreender o futuro - não nascemos prontos, também não somos inéditos, mas tampouco somos ilhas.

(E finaliza citando uma frase de Luciano Crescenzo) “Somos todos anjos de uma asa só , e só podemos voar quando abraçados uns aos outros”. Portanto, líder é um instrutor e um parceiro de asas. 

…..

 Bons voos!!!

 

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23
abr
2014

Colunistas 2.0

por José Henrique Sironi, Luiz Gustavo Oliveira, Luiz Roberto Scott, Marília Martins, Nícia Paranhos Arruda e Walter da Silva Jr.

 

Novas ideias, velhos colunistas… Um formato diferente para um projeto diferente. É isso o que a TdB propôs ao nos convidar para escrevermos aqui – e, mais que isso, para reformularmos um espaço que já existe desde 2012.

Sabemos que com o crescimento da rede, o desafio de levar informações atualizadas e precisas aos voluntários também cresce. E para dar conta disto, é preciso buscar novas formas, novos métodos e principalmente, novos canais de comunicação. É aqui que nós seis entramos.

Cumprimos dois papeis importantes: levar, através de nossas experiências, algumas diretrizes de trabalho a nossos colegas e ser a voz dos voluntários junto à TdB. Uma via de mão dupla que será um elo importante no fortalecimento da relação entre a TdB e seus quase 15 mil dentistas do bem.

Sabemos que nem sempre comunicação e compreensão caminham juntas. Entretanto, é nosso dever estreitar a relação entre as duas… instigando, provocando e refletindo junto com todos.

Por isso, os leitores podem esperar uma linguagem suave, direta, antenada com a realidade, mas também forte e crítica quando a situação exigir. Tudo com a cara da TdB e um toque de revolta e inconformismo.

De nossa parte, esperamos que todos comentem, compartilhem e também usem esse espaço em favor de todos aqueles que fazem a Turma do Bem.

PS: Além disso tudo, a TdB também pode esperar um pouco de atraso na entrega dos textos. RS.

 

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