por Luiz Roberto Scott
(coordenador voluntário de São Paulo/SP)

 

Fim de tarde num café qualquer, de uma esquina qualquer, de uma cidade qualquer.

Ele já estava lá. Aproximo-me, apresento-me e pergunto se posso me sentar com ele. Ele assente com um gesto de cabeça e um pequeno sorriso nos lábios.

-Fernando, posso lhe chamar assim, não?

-Claro, chame-me como quiser, mas de fato não precisa… Estarei aqui…

Aceno para o garçom e peço duas taças de vinho e ali regando as palavras iniciamos a conversa, calma, sem pressa alguma, afinal tínhamos tempo… E ele muito mais que eu.

Lá pelas tantas surge um assunto muito atual, tão inquietante quanto preocupante.

-Fernando, não achas que nas mesas familiares, o lugar dos pais, atualmente é incerto?

-Mesas familiares meu caro, onde? Em tempos de fast food, da praticidade… Elas são escassas até onde existem…

-Mas achas que lhes tiraram o lugar ou eles não souberam escolher e se posicionar?

-Mas de onde mesas não há, que dirá de tais lugares; além do mais a vida tem fases, meu caro… (chamava-me assim não por afeição, talvez por não lembrar do meu nome…)

-Me refiro a partir da adolescência dos filhos…

-Fase difícil, meu caro… Alias todas as fases podem ser mais difíceis se assim o desejar e não o fizer…

Fernando tem dessas coisas, temos que conversar pausadamente, porque sua dialética é provocante… Tenho que digerir cada frase para continuar a prosa… E ele continua:

-Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

-Isto Fernando, mas será que nesta travessia eles não ficaram à deriva… A procura da liberdade não os deixou isolados?

-A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.

-Então você acha que isto é uma evolução? Sabe, às vezes acho que os pais são vistos, tratados e atuam como verdadeiros bancos de esperma, e sabe como as instituições bancárias sempre causaram desconfiança…

-Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?

-Entendo… Acha então que lhes faltam vontade e direcionamento?

-Querer não é poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer.

-Mas a função de provedor e ditador doméstico já não lhes cabe mais. As coisas mudaram, desde a revolução industrial; a evolução tecnológica e a liberdade de expressão, os direitos femininos conquistados (mais do que justos diga-se de passagem) e o controle da concepção pelas mulheres … São causas que conduziram os homens a omissão?

-Meu caro, precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.

-Ahh então não é omissão, é independência?

-A renúncia é a libertação. Não querer é poder.

Neste momento peço mais duas taças… esse hiato seria necessário para tentar entender o Fernando, inspirado e instigante como sempre. A grande vantagem do Fernando, em nossas conversas, sempre foi a de ele não se importar se eu me atrapalhasse e o chamasse de Álvaro, Ricardo ou mesmo Alberto, balançava a cabeça lentamente num gesto de pura compreensão e até com um certo orgulho.

Saboreamos o primeiro gole da segunda taça, e ele continua:

-Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer.

-Certo Fernando, com isso quer dizer que as gerações atuais dos pais estão sendo penalizadas por isto e condenadas a caminhar nas trevas?

-Tudo em nós está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito do mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós…

-Entendo. Então você acha que não depende apenas dos pais para que haja esta mudança deles próprios, talvez a sabedoria das mulheres, até por complacência seria útil na busca deste novo posicionamento…

-Tudo que existe, existe talvez porque outra coisa existe. Nada é, tudo coexiste: talvez assim seja certo…

A noite avançou sobre a conversa, já havia poucas pessoas na rua… era hora de ir.

(… o melhor tempo é o que investimos nas pessoas…)

Sugiro as duas taças saideiras:

-Fernando, toma a saideira?

-Claro, não sou de ferro…

Degustamos em silêncio aquela última taça de vinho do dia… (era o momento de digerir o assunto.)

Após pagar a conta…

-Ricardo, hoje é por minha conta!

E ele mais uma vez assente com a cabeça e o mesmo sorriso enigmático.

evanto-me e me despeço de Álvaro:

-Tchau, Alberto! E obrigado pela clareza.

Caminho lentamente para casa, a relembrar das nossas conversas. Hoje ele não disse, mas já havia dito e aquilo não saia de minha cabeça no meu caminhar:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

 

 

(N.A.)
Fernando Pessoa criou 3 Heterônimos (autores fictícios criados por alguém, com personalidade e traços específicos em suas obras; diferente de pseudônimos que são nomes fictícios de um mesmo autor): Álvaro de Campos – Ricardo Reis – Alberto Caeiro

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), poeta e escritor português.

 

(Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus.)

Na zona do Chiado na capital de Portugal, Lisboa, encontra-se uma das estátuas mais famosas do país: a do escritor português Fernando Pessoa.

A estátua é feita de bronze e é obra de Lagoa Henriques. Encontra-se no bairro lisboeta do Chiado, mais concretamente está na esplanada do famoso e emblemático café A Brasileira, fundado em 1905, que vendia café do Brasil já naquela época, já que o seu dono tinha vivido nesse país e importava diversos produtos que eram originários daí. O café A Brasileira era famoso entre os artistas de Lisboa e era freqüentado pelo próprio Pessoa, Jorge Barradas ou mesmo Almada Negreiros.