A realidade pode ser melhor do que o sonho…

Há trinta anos a odontologia na Zona da Mata Mineira não era para muitos. Ortodontia então, pra pouquíssimos.

Eu sou o filho caçula de uma família de sete irmãos e as minhas vontades, sempre que possível, eram atendidas. Mas aparelho ortodôntico era pra rico e estávamos muito longe disso. Cobrava-se em dólar e a manutenção era um salário mínimo. Filho de mãe costureira e pais separados, eu ia ficar dentucinho por muitos anos.

Eu tinha 13 pra 14 anos e acreditava que, se conseguisse um emprego, poderia pagar este sonho. Convenci minha mãe e fui fazer um curso de datilografia (lembram-se disso???). Era um meio de conseguir um trabalho melhor. Tive sorte, fiz o curso, fui um bom aluno e me contrataram como instrutor. Podem acreditar, virei da noite para o dia professor de datilografia… foi o máximo, meu primeiro emprego formal.

Conseguimos uma consulta com um Ortodontista mais próximo da minha cidade, Dr. Julio, em Ponte Nova, a 100 km de onde eu morava, um pulo… Rs. Minha mãe, com muito esforço, pagou o aparelho e todo meu salário era pouco para pagar a manutenção, mas mesmo assim … era meu sonho. Eu ficava horas na sala de espera do Dr. Julio até a hora do meu ônibus. Muitos clientes… inúmeros, meu Deus. Ser Dentista dá dinheiro, pensava, quero ser Dentista !!!

Os meses passavam, os anos passavam e eu estava lá no consultório do Dr. Julio. O cara comprou uma fazenda, um carro importado, uma casa na praia, ficou rico. Ficava conversando com ele horas, nem saia mais do consultório quando terminava minha consulta, invadia seu espaço, virei de casa. Queria ser Dentista, queria ser Dentista, queria ser Dentista.

Cresci com este ideal. Fiquei dois anos fazendo vestibulares, 10 no total. Só pra Odontologia… quando tinha que escolher uma segunda opção, quando tinha Medicina entre elas, era sempre a segundona. Só eu mesmo, devinham achar que eu era doido.

Entrei na Universidade, estudei muito, me formei e, por uma força maior, cai aqui no Mato Grosso do Sul. Putz … aqui seria mais fácil de ser fazendeiro e comprar uma boiada. Penso hoje, se isso tivesse se realizado, o que seria de mim??? Ou melhor, o que seria da boiada??? Acho que morreria toda de fome.

Faço 20 anos de profissão neste ano, fiquei rico com ela. Claro que um pouco diferente da fortuna adquirida pelo Dr. Julio. Não sou fazendeiro, não tenho casa de praia e nem investi em outra área. Não seria nada nesta vida se não fosse Dentista, é a única coisa que sei fazer com prazer, com amor, com vontade. Ainda mais agora que posso exercê-la em algumas horas de minha jornada, sem o objetivo financeiro, simplesmente pelo prazer de um sorriso. Quer melhor do que isso???

Fiquei rico de outra maneira, sou a pessoa mais feliz do mundo com a minha profissão, estou realizado, encontrei o meu caminho, dinheiro nenhum paga isso.

Gostaria muito que meu filho também tenha este ideal na profissão que ele escolher … minha torcida, vocês já sabem pra qual, ne !!! Sou idealista.

 

Estevom Molica
Coordenador e DENTISTA DO BEM de Campo Grande/MS