por Luiz Roberto Scott
(coordenador voluntário de São Paulo/SP)

 

nfim chegara o grande dia da megatriagem. D. Epifania acompanhou Treivis, ja que Arlete com o novo trabalho não conseguiu a folga desejada. Sairam com o dia ainda escuro, juntos iriam até o metro. Dona Epifania ouvia atentamente as orientações de como e onde fazer as conexões das linhas do metro.

Esta era outra modernidade que ela abominava.

Levou o croche para se distrair no trajeto, já que iria ate Santo Amaro, do outro lado da cidade. Mas isso não era longe, comparado com a distância que seu neto vivia de um tratamento odontologico de qualidade. Mas quem sabe estivessem nos trilhos certos e agora cada vez mais perto disto, quem sabe…

Linhas vermelha , amarela  e azul …e ela tecia…não podia gostar daquilo, como pode gente pobre com roupa de rico e gente rica com roupa de pobre, todos no mesmo vagão, trem esquisito ! Nheco!

Treivis cochilava e ela agora prestava atenção na próxima estação, iam mudar de linha…. Enquanto isso ela tecia,  aquele emaranhado de gente nas plataformas, sabia mesmo para onde ia? Pareciam robotizados, lembrou-se  de quando ainda moça estivera em São Paulo, para visitar um tio internado no hospital psiquiátrico do Juquery, onde muito dos internos eram lobotomizados…. Agiam igual , seria isso? Nheco Manicômios…. Estas estações do metro parecem mais com fabricas de gente… As escadas rolantes parecem esteiras de uma linha de produção, produtos inacabados ou mesmo com defeitos…todos lançados no mercado! nheco Finalmente  chegaram ao Credicard Hall,  quanta organização !

Pessoas gentis, trabalhando incansavelmente… Dona Epifania ficou perplexa  e silenciosamente orgulhosa do que estava vendo. Ela nunca tinha visto tantos dentistas juntos, e bem humorados, em nada lembravam o Dr. Edimar, na época o único dentista em Lambari, e o mais carrancudo de todos! Nheco  Treivis fora atenciosa e cuidadosamente examinado, assistiram a palestras para entender o projeto, receberam um lanche, kit de higiene oral e saíram cheios de esperança e orgulho. Havia algum tempo que ela não experimentava esta sensação- orgulho-por ser tratada com atenção, ser chamada pelo nome , enfim de forma humana, ou melhor :

-…da velha forma humana! Nheco

Estes sim são loucos, e adoravelmente loucos ! nheco Agora era aguardar e torcer para que  Treivis fosse selecionado.

Retornando para casa, de volta ao crochê e às estações de metrô, linhas azul, amarela e vermelha…Liberdade , Consolação e a Luz no fim do túnel!

Nota do Autor

A lobotomia e leucotomia foram utilizadas em pacientes de instituições asilares brasileiras, entre 1936 e 1956. Também chamadas de psicocirurgias, eram intervenções que consistiam em desligar os lobos frontais direito e esquerdo de todo o encéfalo, visando modificar comportamentos ou curar doenças mentais. A técnica, idealizada pelo neurologista português Egas Moniz em 1935 e aperfeiçoada pelo americano Walter Freeman, chegou ao Brasil por intermédio de Aloysio Mattos Pimenta, neurocirurgião do Hospital Psiquiátrico do Juquery, em São Paulo, logo seguido por outros médicos.

Esta medida foi aplicada em mais de mil pacientes internados não só para fins curativos, mas também para aprimorar tecnicamente a cirurgia, uma vez que os experimentos preliminares com animais eram escassos. No Brasil, a técnica foi adotada até 1956, passando a ferir o Código de Nuremberg, de 1947, concebido para regulamentar e conter os abusos da experimentação médica em seres humanos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial e também com o surgimento dos psico fármacos em 1950 e da eficácia tratamentos clínicos a técnica foi abandonada.

O hospital psiquiátrico do Juquery era na época o maior manicômio da América  Latina.