por Luiz Gustavo Oliveira
(coordenador voluntário de Teresina/PI)

 

Já afirmei algumas vezes que a minha vida é um grande apanhado de várias dúvidas e poucas certezas. Mesmo as minhas certezas mais incontestáveis são postas ao chão a todo instante. Isso advém de um espírito crítico ativo e inquieto. Por isso interesso-me tanto por filosofia.

De Platão a Nietzsche, de Sócrates a Focault, passando pelos brasileiros Cortella e Pondé, tudo, ou quase tudo me atrai quando o assunto é o pensamento filosófico. Especialmente, os filósofos que provocam. Aliás, filosofar é provocar o pensamento.

Recentemente, pude conhecer em carne e osso mais um grande filósofo. Um raro prazer! Luiz Felipe Pondé, “o comedor de criancinhas”.

Daniel Brito, Luiz Felipe Pondé e eu no Sorriso do Bem 2012

 

Suas provocações filosóficas em uma palestra que assisti (“Desconfio de pessoas que se dizem do bem”) aguçaram mais ainda meu espírito critico.

O exercício do espírito crítico é considerado atualmente, e com razão, condição fundamental em uma sociedade democrática e até fator de desenvolvimento.

Sem esse atributo, como escolher racionalmente uma boa solução para si próprio e para a coletividade, como discernir as vantagens e as desvantagens de uma hipótese, de uma proposição? Da economia à arte, da psicologia à moda, exercitar o espírito crítico é saber orientar-se na vida.

Mas o espírito crítico será a panaceia para todas as nossas dificuldades? Em primeiro lugar, uma condição não deve ser esquecida: não pode haver espírito crítico sem educação e formação satisfatórias. Quem não sabe ler ou escrever, quem não tem acesso aos órgãos de informação, terá capacidade de discernimento quando jogados nas ruas de uma grande metrópole? Para as populações carentes, que lutam por uma sobrevida imediata, o espírito crítico não tem, praticamente, nenhum significado; é um luxo que só pode ser usufruido em melhores condições, quando, eventualmente, se é beneficiado por certa autonomia intelectual e cultural.

Com base nesse esclarecimento, pode-se também compreender que a noção de espírito crítico não existia na imensa maioria das sociedades antigas e tradicionais em que a autoridade era exercida por um chefe, um patriarca ou um padre. Nessas sociedades, formadas por clãs, cada um desempenhava seu papel ou seu ritual. Quanto ao conhecimento, só merece destaque aquele que pertence ao grupo (ou aos seus deuses). No máximo, podem-se admitir deliberações entre os antigos, talvez um debate sobre problemas que merecem muita atenção. Mas a cultura do “espírito crítico”, em geral, ecoaria como uma incoerência; ela simplesmente não seria compreendida; não faria sentido algum.

Essas constatações não devem nos incutir um complexo de superioridade, permitindo-nos acreditar que somos intrinsecamente superiores a esses povos, a essas civilizações. Elas devem, sobretudo, nos incitar a compreender melhor as características próprias de nossa civilização.

No passado, muitos filósofos caíram em sérios apuros ao contrariar as autoridades com seus argumentos contrários à ordem estabelecida. Mesmo atualmente, o excesso de espírito crítico é sempre perigoso. Quem fizer uma crítica negativa, apenas para discordar ou destruir, será considerado “niilista”, aquele que não crê em nada e destrói por princípio.

Como fazer bom uso desse espírito crítico, que deveria ser considerado uma qualidade e praticado como tal? Não transformando os meios em fim.

O bom senso confirma: criticar por criticar não leva a nada. Não havendo razão para a crítica, continue refletindo filosoficamente, graças a esse espírito e muito além dele.

O espírito crítico é condição necessária, mas não é um fator determinante da filosofia. Com um pouco mais de filosofia desenvolve-se também o sentido e o conteúdo do espírito crítico.

Àqueles que ainda não se aventuraram na filosofia, dou um conselho: não tenham medo dela. Aventurem-se na filosofia!

Não existem rituais de passagem, não há senha nem fórmula mágica para que tornemo-nos um filósofo. Nem tatuagem, nem batismo. Nem histeria coletiva, nem invocação a Deus ou a espíritos. Nem frases carismáticas, nem gritos ou cantos.
Filosofem. Não contentem-se em conhecer apenas uma das facetas da vida, correndo o risco de mergulhar na depressão quando descobrirem as duras realidades de nossa existência.

Não permitam que o espírito crítico, o silêncio lhes permaneçam estranhos. Não lhes neguem a satisfação da curiosidade e da responsabilidade.