por Luiz Gustavo Oliveira
(coordenador voluntário de Teresina/PI)

 

É uma nação
Dentro de um grande país
Um grande povo
Dentro de outro maior
E esse nó
Não desata nem destina
Que essa nação nordestina
O Brasil é o melhor

(Zé Ramalho em Intróito à Nação)


Vez por outra, me embrenho pelas quebradas do Sertão Nordestino numa viagem de pesquisa, descobrimento e encantamento. Uma experiência solitária e muito pessoal, embora esteja sempre bem acompanhado. Sou nordestino e embora tenha nascido numa capital já desenvolvida, me considero sertanejo. Minha alma é sertaneja e tudo que está ligado a esse universo me atrai.

Nessas andanças, procuro conhecer e absorver a essência, os costumes, o modo de viver dessa gente tão sofrida mas tão valente e sábia, que luta dia-a-dia pela sobrevivência em meio a tantas adversidades. Vou registrando tudo. As estórias do cangaço, as relíquias da saga musical do Nordeste: o xote, o xaxado, o baião, o aboio, a toada e aquele algo mais, remotamente ancestral, cujas origens, admitem os estudiosos, emanam do Portugal medievo.

Com minha maquina fotográfica vou colhendo instantes de beleza e registrando a alegria dessa gente que “ri quando deve chorar”. Sim, há muita alegria nessa gente e já tendo andando nesse País de Norte a Sul e Leste a Oeste, não conheço um povo alegre e espirituoso como há no Sertão do Nordeste. Ora foi daqui que saiu o maior humorista (Chico Anysio) e o mais autêntico e genial compositor e intérprete da musica popular do mundo (Luiz Gonzaga), inigualável em sua força telúrica e riqueza temática. Isso, para ficarmos em apenas dois exemplos.

Se vejo um grupo de vaqueiros tocando a boaida pela estrada, paro, desço, peço licença e puxo conversa. E quando dá, até as gravo. Encontro ali, vasto acervo cultural – não por veleidades livrescas (pois são homens de poucas letras), mas pela sabedoria de sentir e ver sem metafísicas ou assomos filosóficos. Ao me despedir, nunca deixo de pedir um aboio. O aboio é um canto sem palavras, entoado pelos vaqueiros quando conduzem o gado para os currais ou no trabalho de guiar a boiada para a pastagem. É um canto ou toada um tanto dolente, uma melodia lenta, bem adaptada ao andar vagaroso dos animais, finalizado sempre por uma frase de incitamento à boiada: ei boi! boi surubim!, ei lá, boizinho! O aboio é uma identidade do vaqueiro. Pelo aboio, de longe, já se sabe quem vem pelas ingazeiras. Minhas lágrimas sempre caem.

Video com um aboio de Zé Cambaio:

 

Vaqueiro do Sertão na lida com o gado

Nessas viagens tento entender o sentimento do retirante. Aquele que vencido por tanto sofrimento em ver sua terra seca, seus filhos passando fome e seu gado morrer de sede decide abandonar seu rincão e partir pro Sul em busca de uma vida ou morte melhor. Morte e Vida Severina!

Alguém já disse que o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas. Pode ser. Nada porém magoa tanto a alma como o tempo que se esvai na distancia da terra mãe. Faz brotar no íntimo, no mais recôndito sentimento da consciência, uma dor que se encanta de poesia ou música – ou em ambas – quando o coração é sensível a estas artes.

“A região que pode ser denominada de Sertão nordestino” – afirma o jornalista Selênio Homem, em trabalho publicado no Diário de Pernambuco, nos anos 70 – “equivale aproximadamente à área onde pesquisadores da história econômica dessa Região localizaram o Ciclo do Gado ou a Civilização do Couro. Subindo pelas margens do rio São Francisco, as boiadas ocupavam o interior do Nordeste até o Piauí. Durante três séculos, a Região ficou isolada e conservou os valores culturais que seus povoadores possuíam originalmente. Valores da Europa medieval. Enquanto o litoral acompanhava de perto a evolução do Velho Mundo, o Sertão, por falta de contato, conservava a herança cultural dos antigos colonizadores”.

 

“O meu boi morreu
O que será de mim
Mande buscar outro, oh Morena
Lá no Piauí”
(Autor desconhecido)

Me perdoem os bahianos e maranhenses, mas meu sentimento de Nordeste enquanto Nação começa do lado de cá do São Francisco e termina nas margens orientais do Parnaíba.

Luiz Gustavo Oliveira

“A luta pela posse das pastagens, pela definição de limites” – garante o jornalista – “configura o primeiro dos elementos medievais aculturados nas caatingas do Nordeste. O domínio da gleba pela violência exigiu a liderança ousada – temerária até – e elegeu a coragem pessoal como a qualidade básica do homem”.

“Os confrontos armados contra o aguerrido gentio do local” – prossegue Selênio – “ainda exalçou mais o heroísmo como atributo diferenciador. Ambos o fatos concorreram para determinar o escopo econômico (posse da terra), o tipo de chefia a ser exercida, a necessidade de manutenção de força militar privada e a criação de unidades autossuficientes e auto protetoras. Surgiram assim o latifúndio, o coronel e o jagunço, réplica das condições do Portugal medieval: o feudo, o senhor feudal e o cavaleiro”.

“Com estes requisitos fundamentais” – segue ele – “nada faltava para o surgimento do fanatismo religioso e do poeta ambulante. Vieram, pois, as figuras do beato e do cantador. Apenas o cangaceiro é que foi a autentica aculturação – um misto de templário `Jacques`e Robin Hood. Um pouco mais que um assaltante das vias comerciais da Idade Média, um pouco menos que um frade guerreiro. Não lhe faltava, porém, uns longes de cruzado ou de soldado de fortuna”.

 

Lampião, o rei do Cançago e Maria Bonita


“Na arte – diz Selênio Homem – “é onde ficou mais pura a influência medieval no Nordeste. A música dos sertões nordestinos, na sua expressão mais genuína – é cantochão sem tirar nem pôr, e o folheto, a gesta ou o rimance. Como os trovadores dos feudos, costumavam os cantadores da Região irem e virem, levando notícias do mundo e cantando em versos, acompanhados à viola, os feitos heroicos ou histórias maravilhosas, nas quais não faltavam as proezas dos Pares da França e da Távola Redonda. Como os menestréis medievos, eram (e ainda talvez o sejam) bem recebidos nas casas senhoriais, muitas delas vazadas (com cesteiras para rifles), em função dos cercos e assédios, idênticas aos castelos da Idade Média”.

O improviso na poesia cantada e musicada do Nordeste tem suas raízes no desafio português ou nas bulerias hispânicas, ambos de origem medieval e que ainda hoje persistem com todos os temperos de procedência.

 

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião cantou a identidade e a alma do povo nordestino

Numa reportagem sobre a Missa do Vaqueiro, também na década de 1970, Selênio persiste em sua tese da influência do medievo na cultura popular nordestina, quando expressa:

“São 700 vaqueiros, a maioria usando gibão ou a véstia de couro vermelho. Ao redor, uma multidão de aproximadamente seis mil pessoas. Manezinho de Caruaru abriu a cerimônia com o cantochão do aboio. Parecia uma mesnada medieval que ouvisse a missa antes do encontro. Padre Câncio, também vestido de couro, como uma capelão templário, lê a Segunda Carta de Paulo ao Coríntios. Luiz Gonzaga canta a música – a canção de gesta que fez para Raimundo Jacó, morto naquele local em circunstâncias misteriosas. Um jovem, de chapéu de couro na mão, chora. Ele é Vicente, filho único do vaqueiro assassinado em memória de quem a missa é rezada.

 

Com minha família em Juazeiro do Norte – CE (Julho/2012) visitando a estátua do Padim Ciço de quem sou devoto.

Em Ouricuri – Pernambuco, parei pra rever o amigo Mestre Aprigio e fazer-lhe nova encomenda. Mestre Aprigio de Ouricuri é o maior artesão de couro do Nordeste e ficou famoso por confeccionar os chapéus de couro e gibões de Seu Luiz Gonzaga e de todos os demais artistas que seguem sua trajetória. Disse-me que desde que apareceu no ultimo Globo Repórter em homenagem ao Rei do Baião tá trabalhando feito a peste e recebendo encomenda de todo o Brasil. Mas que a minha vai passar na frente de tudim.


De influencia medieval de nossos ancestrais colonizadores lusos, de certo brotaram a toada e a balada sertanejas, ainda hoje presentes nos benditos, nas “gemedeiras” e nas cantigas de cego das brenhas nordestinas, sempre mais pungentes no sentimento amargo dos retirantes, dos que migram para o Sul quando a seca feroz queima a lavoura e bebe a água dos açudes; ou no canto desesperado dos romeiros que buscam no Padim Ciço um lenitivo para suas desgraças. “Légua Tirana, “Triste Partida”, “Asa Branca” e “Último Pau-de-Arara” são pérolas inspiradas nesses transes da caatinga ingrata.

E assim, sigo nessa viagem sem fim, buscando alcançar o inalcançável, o sopro de identidade da alma sertaneja, a verve poética, o linguajar próprio, a força, a esperança e a beleza que só o povo do Sertão tem.

 

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.”
(Euclides da Cunha em Os Sertões)