“Os invisíveis”

Até parece título de desenho da Pixar! Mas a reflexão que vamos fazer não se refere a super poderes ou super heróis.

Ser invisível, no conceito de Gilberto Dimenstein, é não ser notado, não pertencer a nenhuma tribo, é sentir-se não ouvido mesmo após gritos desesperados de pedido de ajuda.

Quando o jornalista da Folha de São Paulo fez anotaçōes relativas aos anos 1970, ele se incomodou com o silêncio das meninas virgens que eram leiloadas em prostíbulos no agreste brasileiro. Ao visitar os anos 1980, ele conheceu a solidão dos brasileiros que se mudaram para New York em busca de uma vida sem preconceitos, mas encontraram o isolamento e a saudade. Quando visitou a cracolândia, descobriu que os meninos, traficantes-viciados não posavam para fotografia para não serem “apagados”, definitivamente, por um gatilho: precisavam ficar invisíveis…

Nestas andanças pelas triagens da Tdb, conheci a situação de vida nas casas-abrigo, onde um Tutor se responsabiliza judicialmente por aqueles jovens que precisam ficar escondidos de seus próprios familiares pelos riscos que correm de espancamento, abuso sexual e outras histórias absurdas! Lembro-me de um garoto que havia chegado lá naquela semana, cujo relato me emocionou: “Tio, eu sou de Embu, não conheci minha mãe, morei com meu pai até o ano passado, quando ele morreu. Depois, fui morar com meu avô, que pouco tempo depois também se foi. Eu não tinha para onde ir e fui morar na rua, até que me trouxeram para cá! Tio, o senhor vai colocar aparelho em mim?!!”

Essas crianças nos desmontam emocionalmente, e temos que nos recompor para continuar o trabalho. Tal qual uma dona de casa se apressa para colocar os objetos bagunçados no lugar ao receber uma visita surpresa, nós juntamos os pedaços dos sentimentos há pouco caídos, damos aquela risadinha forçada e falamos: “acho que sim, vamos verificar se tem uma vaga para você e talvez você seja chamado!”

Este menino e outras muitas crianças querem se tornar visíveis; querem pertencer à tribo dos que usam aparelho ortodôntico; elas querem ser incluídas e destacadas de alguma forma. Todos nós temos o instinto de visibilidade!

Quando apoiamos os indivíduos em processos educativos reconstruímos a vida deles e a de uma sociedade. A Maloquinha, na cidade de São Paulo, já foi uma comunidade violenta. O investimento em educação musical e a organização transformaram-na numa Escola de Samba que mudou a qualidade de vida do bairro: isso é a visibilidade transformando… Quando dizem que no Brasil tudo acaba em samba, eu discordo e afirmo que tudo começa com o samba!

Se eu pudesse mudar o título deste artigo, eu colocaria: “Os visíveis com super poderes para transformar o Mundo!” Mas não posso. Há, ainda, muitos invisíveis precisando de nós e aguardando serem triados e descobertos!

 

Osvaldo Magro Filho
Coordenador e DENTISTA DO BEM de Araçatuba/SP