por Luiz Gustavo Oliveira
(coordenador voluntário de Teresina/PI)

 

Ainda ontem, recebi uma carta de um velho amigo velho pra quem também sempre escrevo as minhas. Sim. Ainda uso cartas para me comunicar. Não haveria outra forma com este amigo ancião que rejeita a objetividade moderna e hipócrita do email e detesta, assim como eu, a chatice do debate das idéias pelo fio do telefone. Em pleno século XXI, sinto-me pertencer ao XVIII.

Segundo outro amigo bem mais moço, o notável Dr. Daniel Siqueira, sou dado às coisas velhas (no sentido de antigas, de idade avançada), especialmente os amigos. Por suas contas, a média de idade dos meus amigos mais chegados bate por baixo os sessenta anos. Sempre foi o mestre do exagero, o tal Dr. Daniel Siqueira.

Minha Tia Leopoldina, uma segunda mãe e profunda conhecedora dos recônditos da minha alma, afirma categoricamente que esta já está pra mais de cem anos. Daí, segundo ela, o magnetismo, a atração pelas cousas que atravessam os séculos. Como a palavra cousas, já caída em desuso, mas usada por ela frequentemente em seu vocabulário cotidiano e antigo.

Mas voltemos às cartas.

Pobre das gerações futuras que não receberão uma carta escrita a punho. Que jamais sentirão o leve prazer de, inesperadamente, encontrar uma carta na caixa de correio. Que não experimentarão a mistura de curiosidade e palpitação cardíaca que antecedem a defloração do envelope. Pra quem gosta disso.

Sim! Abrir o envelope é quase como despir a namoradinha antes do desvirginamento. Pra quem gosta disso, é óbvio.

O email assassinou a carta. O Twiter, o MSN, o Facebook são os facínoras do papel de carta. Pobre das minhas filhas que não colecionarão papéis de carta.

Mas há ainda os pobres diabos como eu que resistem. Como meu amigo ancião que não aderiu à internet. Como um Padre Florêncio. Não! O Padre Florêncio só manda e-mails hoje em dia. Mas mandou muitas cartas. Tenho algumas. Como um Roberto de Patrício que não só manda cartas como as perfuma com Azarro. Como um Seu João Claudino, que manda cartas lindas sempre com um papel timbrado próprio e datilografadas. Cartas memoráveis pois tem uma equipe só para escrevê-las e lhes entregá-las no ponto de assinar. Como um José Ribamar Garcia, advogado piauiense brilhante que mora no Rio e que ainda escreve cartas. Como um João Cláudio Moreno que me envia cartas nos meus aniversários ou simplesmente, quando precisa confessar algo. Letras que chegam num papel de carta pessoal, timbrado com seu monograma preto em baixo relevo, JCM. Papel cartão de gramatura superior que traz consigo mais respeito que o operário papel ofício. E ainda, de modo mais peculiar, não as envia pelos Correios, mas pelo Ronaldo, seu chofer com porte de soldado de cavalaria. Acho que foi dele que imitei o meu papel de carta. Timbrado com minhas iniciais, mas que não são em baixo relevo e nem se entrelaçam como as dele. Coisa de artista. Pena que não tenho chofer. Se não, o imitava também nisso.

Meses atrás, minha mulher, minhas filhas, a babá e meu cunhado viajaram por três semanas completas. Mandei uma carta para cada qual. Cinco cartas. Não, seis! Mandei também para a Tia Pepêta, que os hospedou em Salvador.

Pois vejam que me ligaram tomados de uma surpresa esfuziante. Receberam uma carta cada qual. Que coisa inédita. Uma carta! Ninguém mais recebe cartas. Ninguem mais envia cartas. O email, o Twiter, o Facebook…

As pequenas não entenderam nada. Minha mulher já está acostumada com minhas esquisitices. Deve me achar piegas, antiquado ou muito romântico. Que é piegas para os tempos de hoje. Meu cunhado de doze anos deve ter me achado o mais velho entre os velhos que ele conhece. Marleide, a babá pontuou com um singelo agradecimento. E Tia Pepêta também deve ter me achado mais velho que as trinta e três primaveras que carrego.

Pois bem. Voltemos à carta de meu amigo nascido em 1931 antes que isso fique mais comprido do que já está.

Eis que nela, o velhinho me pedia ou exigia que eu me definisse sobre a Educação Sexual. Sou contra ou a favor? Bem. Vou ser o mais taxativo possível: – Sou contra. E, para evitar qualquer dúvida, ou sofisma, direi com a maior ênfase: – “Absolutamente contra.” Não sei se me entendem. A Educação Sexual devia ser dada por um veterinário a bezerros, cabritos, bodes, preás, vira-latas e gatos vadios. No ser humano, sexo é amor. Portanto, os meninos, as meninas deviam ser preparados, educados para o amor. Se meu leitor progressista ainda não está satisfeito, direi algo mais. O homem é triste por que, um dia, separou o Sexo do Amor. Nada mais vil do que o desejo sem amor. A partir do momento da separação, começou um processo de aviltamento que ainda não chegou ao fim. E, assim, o homem tornou-se um impotente do sentimento e, portanto, o anti-homem, a antipessoa.

E dessa forma, respondi em outra carta, meu amigo octogenário. À altura do velho que sou. Ou por outra, do novo de alma velha que sou.