Uma reflexão filosófica para descontrair concepções odontológicas

Recentemente venho pensando muito no verdadeiro significado do que é sair da caverna. Por isso, nada mais adequado do que compartilhar com vocês uma adaptação de “O Mito da Caverna” retirado da obra “A República” do filósofo Platão. E, quem sabe trazer um pouco de inquietude e questionamento sobre nós mesmos.

“Numa montanha distante (ou, quem sabe, mais próxima do que se pode imaginar) havia uma caverna. Seu formato era semelhante ao de uma enorme garrafa. Pelo ‘gargalho’ da caverna, passavam a luz e o ar.

À medida que se caminhava para o fundo, ficava mais largo o espaço entre o chão e o teto. A caverna terminava num paredão de pedra. Do lado de fora, sobre uma rocha, uma grande fogueira projetava sua luz sobre o fundo da caverna. Assim, como a tela de um cinema natural sempre em funcionamento, o paredão era iluminado permanentemente pelo fogo.

Na beira da entrada da caverna, que era semelhante a um muro, havia uma estradinha. Por ela transitavam pessoas que iam ao mercado, comprar e vender mercadorias. Elas conversavam, riam e o som de suas vozes ecoava dentro da caverna. Além disso, as estatuetas e pequenos animais que carregavam sobre a cabeça recebiam os raios de luz da fogueira. Isto fazia com que as sombras dos objetos fossem projetados no fundo iluminado da caverna.

Dentro da caverna moravam homens e mulheres que jamais haviam saído da caverna e sempre estiveram acorrentados ali. Eles tinham uma corrente no pescoço, que os impedia de olhar para trás. Mas, mesmo que conseguissem virar a cabeça, nenhum deles teria coragem de fazê-lo: ‘Olhar para outra direção dá azar’ comentava-se.

Com as costas para a entrada, ficavam vendo as sombras projetadas ao fundo da caverna e pensavam que aquilo era a realidade.
Essas pessoas trabalhavam o dia todo retirando da caverna ‘minério’ que não sabiam ao certo o que era, o colocavam em cestos e o material era recolhido pelo Chefe!

Chefe! Também era acorrentado, mas tinha uma diferença: sua corrente era muito comprida, o que lhe permitia andar entre os prisioneiros e chegar até lá atrás, onde ninguém podia vê-lo.

Chefe! era quem levava as barricas cheias de pedras até a entrada da caverna e as trocava por barricas cheias de pães, Chefe! era mágico. Os acorrentados passavam a maior parte do tempo com fome, ao receberem pedaços de pães recebiam-nos com maior alegria e antes de devorá-los, agradeciam a bondade do benfeitor.

Os presos jamais reclamavam de suas condições, eles nem sabiam que estavam presos, porque todos estavam acorrentados e achavam isso natural. Além de que viam isso com carinho, afinal a corrente era a garantia de segurança, ela evitava, por exemplo, no caso de um tombo, o deslizamento por um abismo.

As pessoas moradoras da caverna denominavam-se cavernosos, adoravam a sonoridade da palavra e tinham enorme orgulho disso.

Os momentos mais gostosos do dia aconteciam quando aparecia alguma sombra lá na frente, na parede. Aí todo mundo parava de cavar e retirar pedras e brincava de adivinhar o nome das sombras que estavam se mexendo na parede iluminada. Mas os acorrentados, nunca chegavam num acordo. Cada um gritava mais alto que o outro, para dar o seu palpite. Também faziam gozação, achando que os companheiros estavam querendo enganá-los.

A sombra predileta era a que fazia o som ‘cocoricó’. Um preso gritava que o daquilo era ‘vaca’. Outro dizia que era ‘pedra’. Mais adiante alguém sugeria que era ‘galo’, mas ninguém acreditava. A brincadeira terminava em muitas risadas.

Como ninguém tinha certeza do que se tratava, os acorrentados pediam a Chefe! que lhes ensinasse o nome daquela imagem. ‘Trata-se de um elefante’. E todos concordavam com Chefe! Ele tinha enorme sabedoria.

A fama de Chefe! era tanta que ninguém notava quando ele (por acaso, claro) trocava os nomes, falando ‘tapete’ para uma coisa que ele tinha ensinado que era ‘elefante’. Bem, quase ninguém notava.

Os cavernosos brincavam muito, adoravam bater corrente e fazer o som de hum, hum, hum! Mas às vezes, as coisas, para alguns não ficavam muito divertidas. Quando acontecia de algum cavernoso colocar menor quantidade de minério no cesto Chefe! pregava um susto , vinha por trás e ZÁS! Jogava um capuz na cabeça do coitado e, em seguida, soltava o cadeado de sua corrente.

O ‘libertado’, confuso, ficava agitando os braços. Daí, Chefe! Gritava: ‘Homem ao mar!’. Ninguém entendia o significado dessa expressão. Mas não faz mal: era o sinal para que o preguiçoso fosse empurrado, em meio a gargalhadas, o mais longe possível de seu lugar . Aí, tiravam o capuz.

Perdido, o alvo da brincadeira perguntava para onde deveria caminhar, cada um dizia para um lado, em desespero o liberto era resgatado por Chefe! quando todos já dormiam exaustos de brincarem.

Mas um dia, fizeram-na com Sou, um dos acorrentados mais jovens. Ele ficava bem perto do paredão iluminado, onde recebia lições extras. Chefe! estava tentando ajudar Sou a perder o estranho mau hábito de estranhar quando ele dava nomes diferentes à mesma sombra.

Sou há dias passava fome, ele era o último a receber o pedaço de pão. Sem forças sua produção caiu bastante.

Um dia, para seu desespero, foi encapuzado e privado de sua guia e segurança: a corrente. Sou berrava em meio a alegria de seus colegas. Rodou pela caverna mais do que de costume, sem conseguir se encontrar. Tirou o capuz.

Sentiu seu coração bater descontrolado quando uma luz forte irritou-lhe os olhos. Continuou a caminhar, repentinamente soltou um grito de pavor , mas com o passar do tempo Sou passou a acostumar com a claridade, com o olfato, e com as sensações na pele, suas percepções notaram maravilhas do mundo externo, com isso surpreendeu-se.

Notara com admiração tudo o que estava ao seu redor. Já era tarde e Sou adormeceu, quando acordou pensara que tudo não passara de um sonho, acreditou estar na caverna acorrentado. Mas que nada, estava fora da caverna.

Feliz retornou correndo para contar a novidade aos outros.

‘Gente! Estou de volta e quero contar-lhes as maravilhas descobertas fora da caverna. O que vocês estão vendo aí no paredão não passa de sombras. Existe um mundo lá fora, muito livre, bonito e gostoso do que esse buraco abafado em que nascemos!.

Chefe! hostilizou Sou. Disse que ficara louco ao ser desacorrentado e salientou:

‘Este verme não merece viver aqui, entre gente decente!’

Sou, surpreso, precisou correr muito para não ser estraçalhado pelos cavernosos. Enquanto corria ouviu alguém gritando: ‘vamos com você’!

– Venham! Sigam minha voz! Disse o rapaz. Correndo no escuro cantava: ‘Eeeeuuuu Soooou! Eeeeuu Sooou!’.

Fora da caverna, Sou percebeu que estava acompanhado por uma menina. ‘Aqui na luz você fica mais bonito…’, disse ela. E sorriu.

Logo depois, capengando, apareceu um velhinho. ‘Quero aproveitar toda a vida que ainda me resta’, disse, soltando uma risada marota.

Os três se abraçaram. Felizes seguiram juntos na direção das pegadas humanas deixadas no caminho.”

Chego a conclusão de que é necessário refletir sobre o que se quer, o papel a desempenhar e o que desempenho. Sair do acorrentamento não é tarefa fácil quando nem ao menos nos demos conta de que estamos presos.

Saiamos de nossas cavernas!

 

 Renata Cancian

Coordenadora e DENTISTA DO BEM de Campinas/SP