A mudança depende de nós

Faz algum tempo que venho tentando ingressar no serviço público através de concursos para dentista do município, do estado e/ou governo federal. Em meados de abril passado, fiz outra prova para prefeitura e senti a mesma sensação de sempre: prova de concurso pode servir pra muita coisa, menos selecionar adequadamente o profissional para a função que ele irá executar. Quem já fez concurso pelo menos uma vez na vida sabe disso. Fica sempre a sensação de estar sendo usada uma ferramenta inadequada. Afinal, na prática, no dia a dia de trabalho, serão exigidas outras tantas habilidades e conhecimentos que não estão sendo contemplados na matéria da prova.

Todos nós sabemos a vergonhosa realidade dos postos de saúde e da falta de respeito com que são tratados os usuários (cidadãos que por lei têm direito de ser assistidos pela rede pública). Seja por parte do governo com seu descaso, ou pela vergonhosa postura antiética e nada profissional de uma grande maioria de profissionais.

Assunto mais do que debatido e comentado é o comportamento do servidor público: preguiçosos, acomodados, desinteressados, descomprometidos. Querem a segurança da estabilidade, mas sem dar nada em troca. Afinal, eles acham que o maior sacrifício que tinham que fazer já foi feito no dia que passaram no concurso, e ponto final! Agora é “bater cartão” e deixar passar o mês sem estresse, na “maciota”, para receber o pagamento e os benefícios, que como autônomo em seu consultório, ele não tem.

Sabotadores de equipamentos, criam justificativas concretas para tirar suas luvas e máscaras e poder ir tomar um cafezinho! Boicotadores de colegas que tentam “sair do esquema” e incomodam por serem produtivos no trabalho, honestos com a população e com os deveres assumidos no momento de assinar a nomeação. Esse é o perfil da grande maioria dos profissionais da rede pública, claro que com exceções.

Aí, vem a pergunta: “E mesmo sabendo de tudo isso por que eu ainda quero entrar nessa?”. Bem mais cômodo e tranquilo assistir de fora e fingir que não tenho nada com isso, certo?

Errado. Sei que estar numa equipe com vícios antigos de relacionamento, comportamento e descaso não é tarefa fácil. Tentar operar mudanças e transformações em fórmulas antiquadas e ultrapassadas de um sistema sem gestão, ou com gestão incompetente, politiqueira, pior ainda. Mas se ninguém mexer uma palha, nada muda.

Por acreditar em mudanças, sinto que são necessárias pessoas capacitadas e éticas que tenham vontade de fazer a diferença. Não dá pra ver o sistema falindo e ficar de braços cruzados. Conheci professores de saúde coletiva que com grande conhecimento de causa mostraram na prática que tudo isso pode sim mudar e muito!

Claro que tem muita coisa envolvida: vontade política, engajamento, compromisso profissional, cobrança (de uma sociedade amadurecida e conhecedora de seus direitos), articulação com Conselho de Saúde e profissionais capacitados que consigam sensibilizar os gestores (sabem o que estão falando, baseados em evidências). Cabe a cada membro envolvido, mesmo que à distancia, fazer a sua parte. Seja denunciando, cobrando, instruindo, fazendo seu papel de cidadão e de profissional.

Sonho? Utopia? Não acho… Acho muito possível. Agora, se ficarmos parados, apenas lamentando, nada vai mudar!

 

 

Renata Cancian
Coordenadora e DENTISTA DO BEM de Campinas/SP