Atari ou Odissey? Como escolhas são difíceis…

A década de 80 foi talvez a mais rica em termos de novidades… antes dela as mudanças eram lentas, o mundo não nos apresentava tantas opções de consumo e, quando elas vinham, duravam anos. O tempo passava mais lentamente. Mas, nos anos 80 surgem mudanças em praticamente todos os setores mercadológicos: nas artes (música, cinema, literatura), nas vestimentas, no modo de falar, na política, na tecnologia…

Lembro-me como se fosse hoje da primeira vez que vi um Atari. Já existia um outro antes, o telejogo (um pininho de cada lado da tela que subia e descia com uma bolinha quadrada imitando um jogo de tênis), mas era bem ruim… mesmo como novidade, e olha que nossa adrenalina ia à mil com aquilo! Já o Atari era como se eu estivesse dentro do desenho dos Jetsons (para quem nunca viu entra no YouTube), o futuro havia chegado finalmente! River Raid, Enduro, Pac Man, Moon Patrol e assim ia a lista dos jogos mais emocionantes do mundo!

Bom, eu não fui um dos primeiros a ter o jogo. Naquela época, criança tinha que “lutar” um pouco para ter as coisas e em minha casa isto não era diferente. E acho até que minha luta tinha que ser ainda maior do que a dos meus amigos. Ou será que eles também sentiam o mesmo?

Seja como for, ou como era, eu suplicava todos os dias pelo vídeo game, até que em meados de outubro, com o dia das crianças se aproximando, meu pai me disse: “Filho, saiu um novo vídeo game!” (naquela época eram os pais que davam as notícias sobre as novidades… hoje meu filho de 11 anos é quem me deixa atualizado). E continuou: “Chama-se Odissey! Ele é como o Atari, mas ainda tem 4 controles e possui um teclado alfanumérico com teclas de contato, você quer o Atari ou o Odissey?”

Pela primeira vez eu teria que fazer uma escolha que poderia mudar a minha vida… pelo menos nos próximos dias na escola. Vocês conseguem compreender a extensão do problema? O tamanho da responsabilidade de minha escolha? Escolher o Atari significaria entrar para a seleta turma dos que possuíam o brinquedo mais maneiro do momento! Por outro lado, escolher o Odissey poderia ser um diferencial, ser o único a ter o primeiro Odissey! Será que o Odissey seria melhor que o Atari? E se fosse? Ou será que o Odissey seria um fiasco? Ganhar os dois estava fora de cogitação. Na hora não consegui responder nada para meu pai e perdi algumas primeiras horas de sono de alguns dias pensando e pensando.

Na verdade, era um enigma sem solução… como seria bom se alguém pudesse fazer esta escolha para mim…

Nossa vida é assim! E empreender é fazer escolhas diárias. Em nosso dia-a-dia no Altera, vemos que o maior empecilho dos negócios são os próprios empreendedores e suas dificuldades em tomar decisões… pois não conseguem viver com o malefício que qualquer perda carrega… pois ao escolhermos algo, abrimos mão de outras possibilidades, de outros caminhos e de todas as coisas boas que poderiam ser derivadas deles… escolhas são realizadas sob incertezas! Mudo de lugar? Coloco mais profissionais em minha clínica? Contrato esta moça? Troco de marca? Tantas escolhas…

Naquele dia meu pai foi meu consultor e conversou comigo. Com calma, colocou seu ponto de vista, disse que sabia da dificuldade que eu estava tendo, mas que ficar sofrendo não adiantaria nada. Assim, me deu uma forma de definir: propôs que colocasse em uma folha todas as vantagens que eu teria ao escolher o Atari e em outra folha as de escolher o Odissey… que depois pontuasse cada item de acordo com sua importância para mim e que escolhesse aquele que no final tivesse maior pontuação.

Mas antes que eu começasse a fazer isto me perguntou: “Filho, nas férias deste ano você quer ir para aquela praia em que sempre vamos e que você adora, ou quer uma conhecer uma praia nova?” e eu respondi: “Uma praia nova!”. Ele falou, “Então você já sabe qual o vídeo game que te fará mais feliz!”. Ele estava certo… sempre gostei de trilhar caminhos em que as pessoas ainda não haviam trilhado. Escolhi o Odissey! O Atari era melhor… mas eu podia escolher em qual casa de amigo eu ia jogar… todos tinham o Atari. Mas quando queríamos jogar Odissey, íamos para casa. Virei notícia! E se isto é bom para um menino, imagine para o seu negócio!

Boas escolhas.

Ricardo Lenzi
Consultor de Gestão e Marketing em Saúde,
Sócio-Proprietário do Altera e parceiro da TdB