por José Henrique Sironi
(coordenador voluntário de Laranjeiras do Sul/PR)

 

Vocês já ouviram histórias de pessoas que foram salvas de um desastre por algum objeto insignificante que portavam? Dia desses aconteceu, até passou na TV. Um motorista de ônibus foi assaltado e após ter entregado seus pertences, devido a um movimento brusco, os assaltantes se assustaram e passaram fogo nele. Um dos tiros acertou o trabalhador que não morreu porque o projétil desviou em uma caneta que estava no bolso da camisa. Os ladrões fugiram deixando para trás o homem. Pouco se importaram se era pai de família e se iria fazer falta para alguém.

Comigo aconteceu algo semelhante. Fui salvo pela cadeira odontológica.

Tenho meu consultório particular, mas também atendo para a Prefeitura.

Quando escolhi trabalhar para o SUS, entrei com a idéia de que poderia mudar a percepção das pessoas em relação ao funcionalismo público.

Sempre encarei o serviço de maneira comprometida. Atendo bem as pessoas, com sorriso no rosto e dando a atenção necessária. Pergunto para o paciente o que ele precisa, não vou fazendo o procedimento mais fácil. De maneira alguma estou lá só pra cumprir tabela.

Acredito que essa atenção diferenciada tenha sido entendida de maneira errada por um cidadão, o que me rendeu um tremendo susto.

Segue o acontecido:

– Putz, Ju !!! A gente esqueceu a extensão de novo!

Não tivemos alternativa a não ser empurrar a cadeira odontológica bem pertinho da pia, pois ali se encontrava a tomada mais próxima.

Já fazia três dias que estávamos atendendo na nova unidade de saúde. Há seis anos eu já tinha trabalhado lá. Um bairro da periferia da minha cidade.

Na verdade foi meu primeiro local de trabalho desde quando entrei no quadro de funcionários da prefeitura.  Talvez isso justificasse certa paixão por aquele lugar.

A sala clínica não tinha nada demais, a não ser as janelas. Eu gostava daquelas janelas. Duas. Verdes e amplas. Deslizavam com dificuldade tanto no abrir quanto no fechar, mas o esforço era recompensado pelo vento agradável que entrava e trazia um perfume dos produtos de limpeza que as funcionárias da escola usavam pra deixar as calçadas limpas. Sim, era uma unidade de saúde dentro de uma escola do ensino fundamental. Parecia loucura. Criançada correndo, gritos no intervalo de aulas. Tinha um professor da sala de cima que usava uma técnica de alfabetização a qual eu já tinha decorado. Tudo isso entrava pela amplitude da minha janela.

Seis anos se passaram e eu retornei.

Naquele mesmo dia comentara com minha companheira de trabalho:

– Você vai gostar daqui! É calmo e o povo é “gente boa”. Nunca enfrentei nenhum problema!

Ô, língua!!! Foi eu terminar de falar invade o consultório um cara muito mal encarado gritando e partindo pra cima de mim. O cara estava totalmente alterado.

Primeiramente pensei que fosse um paciente descontente por esperar, mas logo em seguida entrou a moça a qual havíamos acabado de atender. O homem era marido dela… e estava tomado pelo ciúme. Quem sabe ela tenha elogiado o atendimento, sei lá…

Com a mão direita ele agarrou a moça pelos cabelos enquanto tentava me pegar com a esquerda (fora tudo aquilo que ele gritava).

O que me salvou? A cadeira odontológica, que estava tão encostada na pia, por falta da extensão, que não permitia a passagem do agressor.

Será que ele está armado? Será que ele vai me alcançar? O que passa pela cabeça de um louco desses? Gente! Foi uma cena horrível!!! Uma pessoa dessas mata só pra ver o tombo. Ele provocava. Queria que eu o enfrentasse. Tinha “sangue nos olhos”.

E eu lá… só esperando ele se acalmar.

Devido à gritaria as crianças começaram a sair na janela e alguns funcionários que estavam por ali se aproximaram. A polícia foi chamada e o machão fugiu, sem antes quebrar a vidraça do consultório e agredir a esposa com socos e pontapés em frente a vários professores e alunos que assistiam impotentes. Por que impotentes? Por medo! Eu não conhecia o figura, mas os moradores locais conheciam e depois me contaram: O homem estava na condicional. Está sendo investigado por homicídio. Foi preso várias vezes e no mesmo dia tinha atentado contra a vida de terceiros portando uma faca. O cara é altamente perigoso.

Foi um tremendo susto… E se ele voltar armado pra acertar as contas?…eu tentava entender o que o tinha levado a agir daquela forma.

E daí, você acha que eu mudei meu jeito de atender as pessoas por causa desse fato. Claro que não. Esse acontecimento isolado não pode se sobrepor ao carinho que devemos ter com o nosso próximo. Independente de ser paciente do SUS, beneficiário ou particular, todos devem ser tratados com respeito, atenção e dignidade. Eu escolhi ser voluntário da TdB para servir e não para ser servido. Dar uma oportunidade para aqueles que nunca tiveram a chance de um bom atendimento. Dificuldades como essa a gente vai passar, mas não devemos desanimar, pelo contrário, vamos tentar pagar o mal com o bem. Continuo firme, atendendo a mesma comunidade e com laços mais fortalecidos.

Em relação à extensão de luz: continuo esquecendo, diariamente, só por precaução.