por Luiz Roberto Scott
(coordenador voluntário de São Paulo/SP)

 

Na cozinha Dona Epifania construíra seu castelo indevassável; como uma maga transformava produtos e alimentos com suas alquimias culinárias em verdadeiras fontes de prazer e dedicação. Vivia às turras com o fogão de 6 bocas e com as demais modernidades daquele modelo de cozinha “americana” e sua falta de espaço… sentia falta principalmente da vista que tinha de sua cozinha em Lambari…. o terreiro ali e sempre as galinhas soltas a rodear e a ciscar esperando as sobras que sempre vinham pela janela …o feijão escolhido na peneira sempre produzia sobras certas, mesmo com alguns pedriscos que as próprias galinhas acabavam comendo sem perceber…mas como diziam por la os antigos, isto tornava as futuras moelas cozidas ainda mais saborosas e encorpadas. Pela janela Dona Epifania podia vigiar o varal e o quarador, onde além dos tecidos brancos, colocava as panelas ariadas com as cinzas do fogão e o sol fazia o trabalho final de garantir o brilho. A outra briga era com a torneira da pia… pra que tamanha pressão e barulho? Tinha saudade do sítio, onde a água corria calmamente e parecia serpentear até o ralo.

Para aquela noite tinha preparado bife à milanesa, que mesmo sem o fogão a lenha e sem a banha para a fritura, ainda saia maravilhosamente dourado e com a casca firme e crocante estufada na medida certa. A salada de batatas levava ainda cebola, ovos cozidos, azeitonas verdes e bastante salsa e cebolinha… os ovos… esses eram diferentes mesmo daquela época! Os da cidade não tinham o mesmo sabor nem a consistência daqueles que ela usava fartamente no Sítio São Francisco. Não conseguira dar o mesmo acabamento às tortas e empadas de lá, quando pra finalizá-las, besuntava a gema sobre a massa com um aplicador dos mais eficazes: penas de galinha ou de patas que eram ainda melhores. Por um momento pode visualizar Seu Evaristo catando os ovos nos jacás de bambu pendurados nas goiabeiras espalhadas pelo terreiro…

Fim de mais um dia na roça e lá vinha Seu Evaristo. Mal apontava na curva do canavial, Corisco, o fox paulistinha, ou quase isto, desembestava ao seu encontro. Corisco corria desengonçado por conta de uma queda da charrete quando ainda era filhote… mas nem por isso perdera sua agilidade. Seu Evaristo, cumprindo sua rotina, trazia na carriola um bom pedaço de lenha, algumas folhas danificadas das couves, frutas caídas do pomar e dois talos da boa caiana. Primeira parada no chiqueiro para alimentar os leitões. Depois passava pelo piquete e cabresteava o baio que já o esperava junto à cerca. Catava os ovos nos ninhos e fazia a segunda parada no barracão. Encostava a carriola, escovava o baio e atrelava a charrete cuidadosamente, sacudia as almofadas do assento pra tirar o pó, debulhava uma espiga de milho, só pra acarinhar o baio, e outra ia debulhando enquanto caminhava recolhendo as galinhas no cercado… Tititititi…..Tititititi…. Era hora de ir com a charrete esperar a pequena Arlete na beira da rodagem, a um quilometro da porteira do sítio. Ela vinha na condução da prefeitura voltando da escola. Na volta, o trote do Baio ditava o ritmo da prosa entre pai e filha. O entusiasmo e as histórias da menina pareciam recarregar suas energias e eram o aperitivo para o jantar que os esperava… “Ah Evaristo !!! Pra que a cambalhota, pra que??? Nhéco”

– Filha, o jantar está servido… Arlete beijou a testa da mãe e postou-se a mesa. Treivis sentou-se ao lado mais entusiasmado do que nunca. Naquele dia, ao voltar da escola soubera que haveria uma mega triagem odontológica ali do lado, no parque das Américas e ao entregar o folheto mal se continha… “Será, mãe? Será?”

Arlete leu as instruções e comentara com a mãe. Apesar de ganhar razoavelmente bem, pouco lhes sobrava após pagar o aluguel e o condomínio, mais as despesas de alimentação e transporte…Treivis só tinha ido ao dentista uma vez, tirar um dente de leite, depois lhes faltavam tempo, dinheiro e afinal ele nunca se queixara de dor…

Anotou em sua agenda e na folhinha atrás da porta da cozinha, não poderiam deixar passar esta data 18/03… quem sabe não fosse esta uma grande oportunidade.

D. Epifania: “ Eita, de graça??? Num deve de prestá !!Nhéco”

“Será, mãe? Será?’