por Luiz Roberto Scott
(coordenador voluntário de São Paulo/SP)

 

Arlete chegara como de costume, meia hora antes de seu horário oficial de trabalho. Como gastava no trânsito de casa ao escritório uma hora e meia, em média, tinha que acordar com o dia ainda escuro e naquela noite dormira muito pouco.

Ontem, hoje e amanhã foi por onde perambulou a noite inteira, em sono leve que não conseguia descobrir se pensou ou sonhou. A única certeza é que estava exausta e isto era uma péssima maneira de começar um dia.

Sobre sua mesa de trabalho um bilhete: “Aguarde Dr. Campelo, antes de iniciar.” Um pouco desorientada com aquela quebra de rotina, desceu ao café do prédio da empresa. Estava cheio e agitado, pessoas de vários departamentos, amigos casuais, que discutiam animadamente a rodada de futebol e a novela da noite anterior. Entre um bom dia pra cá e um oi como vai pra lá, pediu um espresso e um pão de queijo. Enquanto os consumia elencava todas as diferenças que o seu café e seu pão de queijo teriam… o segredo de dona Epifania para esta receita era polvilho azedo na medida certa… que diferença!

Arlete chega de volta a sua mesa e aguarda pouco tempo até a chegada do Dr. Campello. Ele sempre foi um bom chefe, homem de poucas palavras, centrado em seu trabalho e na luta pelas metas da empresa. Nos últimos dez anos em que trabalharam juntos, ela acabara de descobrir que Dr. Campello nunca soube como era a sua vida… aliás corrigiu-se, nos últimos dez anos nem ela sabia como tinha sido sua vida… atribulada por rotina e compromissos, não tivera tempo para esta reflexão…

– Arlete, iniciou o Dr. Campello, a empresa passa por uma reestruturação de seus quadros e neste processo devo dizer que a Sra. foi transferida para o departamento de recursos humanos. Mas manterá os mesmos salários e benefícios que tinha. Gostaria que conhecesse também a Srta. Silvia que a partir de hoje ocupará o lugar de secretária. Entre outros atributos, Silvia é fluente em quatro idiomas, incluindo o chinês.

– Ah, sim… prazer, posso lhe passar todos os detalhes Silvia…

-Não será necessário, interrompeu Dr Campello, a Sra deve apresentar-se ao RH ainda pela manhã. Sugiro que recolha suas coisas pessoais e encaminhe-se para lá imediatamente…

Desnorteada Arlete levantou-se, despediu-se dos dois e estava a caminho de sua mesa quando foi interrompida…

– Sra. Arlete, ia me esquecendo de agradecer-lhe a dedicação e o bom desempenho nestes anos de trabalho, conte comigo para o que precisar, obrigado.

Ela apenas assentiu com os olhos e saiu.

Departamento de RH é no 3 ou 4o andar? Nossa quanta coisa juntei nestas gavetas , pensava ao encaixotar seus pertences… ateve-se a mais uma de suas anotações de canto de folha…” Não nos desfazemos de um vício atirando-o pela janela, é preciso fazê-lo descer as escadas degrau por degrau…” Mark Twain.

No elevador acionou o 3o andar. Desceria 12 andares, quase metade do edifício… não conseguia concatenar as ideias, era uma efervescência de imagens desorganizadas que lhe vinham à cabeça durante este curto trajeto… Inclusive Chinês!!! Surpreendeu- se com a rapidez da chegada ao 3o andar… E mais ainda ao abrir-se a porta do elevador… uma grande faixa… Bem vinda Arlete, nossa equipe agora esta completa!! Tania, Vera e Selma…

As três aguardavam -na logo no hall com flores, apresentaram -se e a conduziram ao seu novo local de trabalho…

– Acomode-se nesta mesa , sobre ela já tem algumas leituras que você deve fazer antes de iniciarmos… inclusive este manual de procedimentos… Leia com atenção, ao meio dia sairemos para o almoço de boas vindas e lá conversaremos com calma – orientou- lhe Tania, que era a chefe do RH.

A sala continha uma grande mesa oval no centro e nos quatro cantos mesas semi circulares que acomodavam as, agora, quatro mulheres. ( O RH refletia bem a empresa, mulheres nos quatro cantos…) Agora as flores ornamentavam sua mesa… Sentiu-se bem com a mudança, o ambiente lhe parecia muito agradável e tratou de decifrar e absorver os manuais de procedimentos e as orientações iniciais sobre a mesa.

Ainda surpresa com a mudança, mas não assustada, sentiu-se de fato acolhida pelas novas companheiras…

Aliás, flores… quando foi a última vez que recebera? Ah sim, coincidentemente de três mulheres, as enfermeiras da maternidade -quando Treivis nasceu… Há 13 anos!

Antes da saída para o almoço, Arlete subiu ao 15o andar, acessou as escadas e desceu por elas…

-Espero que Mark Twain esteja certo!