por Luiz Roberto Scott
(coordenador voluntário de São Paulo/SP)

 

Outubro de 2017, manhã de uma fria e chuvosa quarta feira…

Arlete recebeu um e-mail de Dr. Alceu, famoso advogado de Lambari, resumidamente ele relatava a morte do tio Eduardo, que em seu testamento a deixara como única herdeira. Desta forma ela deveria ir ate Lambari para as formalidades.

Tio Eduardo ficou responsável pelo sitio São Francisco após a morte de seu pai e desde então ela nunca tivera noticias das coisas por lá. Pouco conhecia do tio, tido como um sonhador e não muito dado ao trabalho; ao menos é o que se lembrava, segundo os comentários de seu pai. Ao saber da noticia, D. Epifania logo desferiu:

– Espero que não tenha deixado dividas; nhéco!

Arlete tinha que se apressar, tinha uma reunião importante na empresa e deveria voltar tarde para casa aquele dia.

-Mãe, arrume sua mala, amanhã iremos a Lambari!

No trajeto de casa para o escritório, traçava os planos, fazia mentalmente a lista de coisas a levar e na volta, quem sabe, uma passada em Pitangui, para visitar Treivis… seu sonho de fazer escola técnica agrícola, ela estava as duras penas conseguindo concretizar e com dificuldade conseguia mantê-lo lá… e mais essa agora, será que tio Eduardo me deixou dividas?

Treivis conseguiu entrar na Escola técnica agrícola de Pitangui, e fazia o curso de automação agrícola desde o começo do ano; estava muito feliz e apreensivo quando partiu, pelo resultado, pelo seu sorriso novo conseguido e pela alta da ortodontista…

Ao chegar ao escritório, Arlete ligou para a empresa Santa Cruz e comprou as duas passagens para a manhã do dia seguinte, tendo o cuidado de reservar no horário que a viagem duraria menos tempo, apenas 4 horas e evitando o “ cata jeca” como era conhecido o percurso que consumia 7 horas e meia…

Na reunião ficou sabendo das novas metas da empresa, mudança no quadro de funcionários, e muito mais, mas notava certa inquietação por parte de Tania, sua chefe. Assim transcorreu o dia, sem horário de almoço, apenas um lanche rápido ali mesmo na mesa de reunião. Ao final da tarde, com todos os assuntos em dia, relutou, mas teve que ceder à insistência das amigas do trabalho para um Happy Hour…

Já no bar, contou a elas sobre suas apreensões e a necessidade da ida com urgência para sua cidade natal. Conjecturas e especulações sobre o testamento tomaram conta das conversas, hora animadas, hora assustadas e “ora pro nobis”, pediu a palavra Tania, lá pelas tantas…

– Querida Arlete, hoje faz quatro anos que estamos trabalhando juntas, e depois de muito conversarmos, chegamos à conclusão de presenteá-la com algo que de fato possa lhe dar mais alegria e menos ansiedade… Estendendo-lhe um lindo pacote do tamanho de uma caixa de sapato.

Em meio à tamanha euforia das amigas e gritos de – abre , abre , abre Arlete sem jeito começou a desfazer o pacote… e as amigas: rasga ,rasga ,rasga … enfim conseguiu ver a caixa onde se lia : Dispositivo Bullet… ao remover a tampa pode ver, era um vibrador ! E as amigas, liga ,liga,liga…Arlete quis entrar na caixa e se esconder tamanha a vergonha e o rubor que causara, mas logo abraçada por Tania, sentiu- se mais confortável ao ouvi-la: Calma, querida, ganhei um do Inácio e posso lhe garantir que isto deu aquele “plus a mais” em nossa relação e olha que estamos casados há vinte anos…experimente e verá!

As conjecturas e especulações agora eram outras, entre gargalhadas e seriedades que embalaram o fim da noite.
Ao chegar a casa, Arlete agradeceu, pela única vez ,o fato de Treivis não estar morando com ela e em casa naquele momento. Tratou logo de esconder no armário o presente e pôs- se a fazer a mala e separar documentos necessários para aquela viagem. A mala de D. Epifania já estava ao lado da porta de entrada, junto com alguns pacotes de presentes.
-Mãe que presentes são estes?

– Para as minhas amigas, filha.

-Mas você não falou com elas todos estes anos , nem falou delas?

– Filha, amigos podem ser circunstanciais, podem ser passageiros, mas sempre serão amigos eternos enquanto puderem ter sonhos em comum, serão eternos por quanto perdurarem seus sonhos! Nhéco!