Carinhoso

 

Primeiro dia de atendimento depois de 13 dias ausente no consultório sempre causa reações das mais diversas na sala de espera.

Tem quem fique feliz por rever a dentista e saber que terá seu tratamento retomado… tem quem fique emburrado porque, afinal, a “paradinha” no tratamento estava ótima… há quem nem se afete com nada disso, afinal, nem sabia que a dentista estava fora do país (paciente novo)… Mas a reação mais bacana é aquela de quem acompanha de perto a profissional e volta muito curioso e interessado querendo saber como foi a viagem, o trabalho, os lugares visitados.

E com a agenda com horários apertados nessa fase, não temos como nos alongar muito nas conversas e elas acabam virando manchetes rápidas e breves ou, como eu mesma denominei, as “conversas documentários” – aquelas onde o paciente apenas ouve, mas não pode interagir, perguntar, participar, afinal tem sugador, luz, algodão…e tudo começa assim:

– Oi Dra! Como foi de viagem? Como foi em Lisboa? Não vai me dizer que não foi no Castelo de São Jorge!?

– Claro que estive, querida! Lindo lá, né?

Sugador, grunhido: – Ahn hã…

Impossível não visitar monumental construção de inquestionável beleza e importância histórica! Mas apenas passear, observar, fotografar e comprar ímãs de geladeira teria sido um lugar comum, uma rotina de turista. Porém, quando se está num grupo de 20 dentistas brasileiros voluntários da Turma do Bem, o improvável acontece.

Estávamos, naquele momento, num grupo menorzinho, com coordenadores de Pindamonhangaba -SP, Belo Horizonte-MG, Mogi das Cruzes-SP, Campo Grande-MS, Campinas-SP, Florianópolis-SC e Rio de Janeiro, subindo e descendo as muralhas, apreciando a construção, a vista de toda Lisboa, rio Tejo, numa mistura de sensações, numa quase confusão de tempo e espaço, ouvindo muitos idiomas, escolhendo o melhor ângulo para a foto e na luz ímpar que Lisboa tem ao pôr do sol.

Até aí tudo na mais esperada e óbvia ordem, até que começamos a ouvir uma melodia velha, conhecida, vinda do violão de um artista no pátio do Castelo. Por uns segundos uma hesitação do grupo, mas, passados alguns acorde,s impossível não reconhecermos a canção.

Veio um estranho aperto na garganta, um arrepio, uma umidade nos olhos e todos os sete nos entreolhamos,
instintivamente começamos a cantar:

“…e os meus olhos ficam sorrindo e pelas ruas,
vão te seguindo, mas mesmo assim, foges de mim!
Ah, se tu soubesses como eu sou tão carinhoso e muito que te quero,
e como é sincero o meu amor, eu sei que tu não fugirias mais de mim!”

Sim, estávamos todos cantando no alto da secular muralha, olhando para o violonista, numa feliz coincidência de pessoas, lugares e tempo que fez aglomerarem-se no pátio dezenas de pessoas que, sorrindo, paravam para assistir.

Seguimos firmes cantando e, ao final, todos os presentes aplaudiram muito a inesperada apresentação, o violonista levantou e agradeceu num aceno singelo.

Foi emocionante demais cantar dentro de um local construído para guerras e conflitos, foi emocionante cantar uma música brasileira, cantar com colegas dentistas, Dentistas do Bem, sentir sincronicidade e sinergia.

Choro coletivo e abraços.

Castelo de São Jorge, nós não somos os mesmos depois disso.

Quando terminei minha “conversa documentário”, mas ainda em atendimento, recebi um aplauso simbólico da paciente, com a ponta dos dedos das mãos, para não atrapalhar a polimerização da resina!

E depois tem gente que me pergunta: o que você ganha com essa Turma do Bem?

Respondo ‘…e só assim então, serei feliz, bem feliz!”

 

 

PS: Pindamonhangaba – Dra.Luciana Bason
Belo Horizonte – Dra.Fátima Porto
Mogi das Cruzes – Dra. Roberta Sueli
Campinas – Dra. Renata Cancian
Florianópolis – Dra. Carla Fey Krieger
Campo Grande – Dr. Estevom Molica
Rio de Janeiro – Dra. Hellen Mary

 

Renata Cancian
Coordenadora e DENTISTA DO BEM de Campinas/SP