por Marília Martins
(coordenadora voluntária de Guarulhos/SP)

 

Imaginem o seguinte diálogo entre duas crianças, uma mãe, Fernanda (coordenadora voluntária da Tdb) e Caio Leão (Diretor de comunicação da TdB):

Caio: Sra. Fulana, pode me acompanhar, por favor?! – Seguindo para trás de uma lona.

Criança: Mamãe, não vá. Não vá!!! – Pedindo com expressão de quem vai chorar.

Fê: Mas por que você está falando assim?! Sua mãe só vai tirar uma foto.

Criança: Mas ela está indo lá pra trás com aquele homem.

Fê: Mas ele é bonzinho, ele é meu amigo!!!

Criança: Mas ele é HOMEM!

 

Eu não presenciei essa cena (ainda bem… eu não seguraria as lágrimas!!!), mas me contaram segundos depois de ter acontecido (as lágrimas vieram, mas não caíram). Foi apenas mais uma do monte de histórias tristes que presenciamos naquela sexta-feira em que fomos para uma triagem na Casa de Isabel, instituição filantrópica que dá apoio psicossocial a mulheres que sofrem qualquer tipo de violência. Ali vi o quanto a realidade pode ser cruel, o quanto o meu mundo cor-de-rosa é irreal.

Cresci em uma família bem estruturada na qual o casamento é sagrado. Meus pais são casados há 31 anos e poucas vezes discutiram. E essas discussões não demoravam muito para se desfazer em abraços e olhares de perdão. Por ver a mesma realidade na casa dos meus tios e dos meus avós, sempre achei meio irreais e fantasiosas aquelas mulheres que apareciam na televisão dizendo que apanhavam do marido. Meu mundo cor-de-rosa…

Naquela sexta-feira conheci mulheres que passaram e ainda passam por agressões sérias por aqueles que se dizem “seus companheiros”. Você, mulher que está lendo esse texto, já se imaginou levando uma panelada na boca ou um pontapé nos seios?!?! Tente imaginar…

Umas histórias chamavam mais atenção do que outras. Uma senhora bem-humorada, que aparentava ter uns 60 anos, tinha cerca de 75% da pele do rosto e do pescoço queimada, com aquele aspecto enrugado. Ao ser questionada sobre seus dentes, o riso se perdeu. Me explicou que “arrancou” todos, pois eles foram quebrados quando o “maldito” bateu nela há 10 anos.

Outra estava linda com óculos escuros enormes, aparentando uma condição econômica razoável – até cheguei a julgar que estava “perdida” por lá. Instantes depois ela sai com o olho roxo, tinha sido agredida no dia anterior…. não eram apenas óculos escuros, era uma máscara para esconder a vergonha.

Algumas preferiram mudar a opção sexual, se tornaram homossexuais, tamanho o pavor pelo sexo oposto.

Teve outra senhora que foi ao dentista e pediu a extração de todos os dentes para que o agressor (não dá para chamar de marido) não a reconhecesse mais; ela preferiu se mutilar, descaracterizar um sorriso, para não continuar apanhando. Algumas das centenas de atrocidades que passam por aquela casa.

Mulheres nais quais o sofrimento está estampando nas marcas das agressões ou nas rugas que o tempo criou mais depressa. Mulheres jovens com aspectos de senhoras cansadas. Diversas delas estremeciam ao pensar em tirar uma foto, pois eram “feias demais”. Esqueceram a vaidade, beleza, delicadeza ou feminilidade; não se permitiam SER MULHER.

Uma das perguntas que tínhamos que fazer era sobre o atendimento odontológico em postos de saúde. Resultado: cerca de 99% não conseguiram tratamento no serviço público. Fizeram a inscrição no postinho, mas nunca foram chamadas e as desculpas eram diversas. E ainda assim os governantes querem que a gente acredite no “Brasil Sorridente”. Oi?!?!?!?!?!?!?!

Na Casa de Isabel elas recebem todo apoio psicológico e jurídico que necessitam. Mas não têm acesso à “curva mais linda do corpo humano – o sorriso”. E muitas querem sorrir. Elas não conseguem emprego fixo por causa do terrível aspecto bucal. Não se relacionam com outras pessoas; até querem resgatar a feminilidade perdida entre um tapa, soco ou panelada, mas a falta dos dentes impossibilita isso. Elas são privadas de vida social, profissional e até afetiva (muitas queriam recomeçar, mas dessa vez com pessoas decentes).

Uma pergunta que faltou no questionário: você está feliz?!? O NÃO estava estampado no olhar de cada uma enquanto falavam com a mão na boca. Algumas com uma dificuldade imensa de dicção.

Saí de lá mal. Minha mãe até tentou me mostrar o bem que “minha turma” e eu estávamos fazendo àquelas mulheres, mas não adiantou.

Sou apaixonada pela minha profissão e pelo meu dom de reconstruir sorrisos. Sou uma pessoa imediatista, queria tirar a dor que muitas sentiam ali, naquela hora. Queria implantar meus adorados pinos de titânio naquele momento para que aquelas mulheres acreditassem que estávamos ali para solucionar um pouco dos problemas delas.

Sim, será de graça… muitas não acreditavam que poderiam ganhar um tratamento odontológico completo e gratuito. E não as julgo por isso, pois muitas não acreditam que o SER pode ser HUMANO. A MULHER que mora em mim saiu de lá completamente abalada e assustada.

Agora só espero que as questões burocráticas que envolvem o projeto “APOLÔNIAS DO BEM”, sejam resolvidas o mais breve possível. Serão 50 mulheres beneficiadas inicialmente. Depois dessa triagem, desejo demais que o “APOLÔNIAS DO BEM” tenha o mesmo sucesso que o “DENTISTA DO BEM”.

Uma vez me disseram que fazer o bem vicia, nem me lembro de quem foi, mas essa pessoa está coberta de razão. É tão viciante que você quer expandir, você não se contenta em ajudar só os jovens, você se revolta por não fazer mais e mais. Essas mulheres precisam ser resgatadas socialmente, voltar a viver, trabalhar, SORRIR, amar, se amar!!!

Meu mundo cor-de-rosa não entende esse lado obscuro do mundo real. E hoje, escrevendo esse texto, cheguei a conclusão que não vou pintar meu mundo com as cores dessa vida real que conheci; quero ajudar essas mulheres a pintar o mundo delas, pode ser de rosa, lilás, vermelho, amarelo, laranja ou de qualquer cor que as façam sentir e acreditar que são MULHERES.