por Luiz Gustavo Oliveira
(coordenador voluntário de Teresina/PI)

 

Tempos atrás, fui viajar. Andei por Londres, Paris, Roma. Estive na Praça de São Marcos. E lá, virei-me para não sei quem e perguntei: – “E os pombos? Onde estão os pombos?” Apontaram: – “Olha ali.” Protestei: – “Não são pombos, são turistas americanos.” Só então soube que os turistas americanos estavam ali, substituindo os pombos. Que fiz? Atirei o milho que trazia nos bolsos. Foi lindo ver o açodamento com que os turistas americanos bicavam o milho pelo chão.

Mas eu já conhecia tudo aquilo de cor. Já no tédio do turismo convencional, tive uma luminosíssima ideia: – “Vou a Moscou.” Três ou quatro dias depois, estava na fila do túmulo de Lênin. Entre parênteses, Lênin morreu quando devia morrer. Nem um minuto antes, nem um minuto depois, mas na hora certa. Vivesse mais quinze minutos e seria um outro Trotski. Mas já estou me desviando do assunto e passo adiante.

Onde é que eu estava mesmo? Já sei. Dizia que fui a Moscou. Com meia hora de Rússia, baixou-me uma inconsolável nostalgia do Brasil. Andei cochichando para um dos acompanhantes: – “Como isso é chato! Como isso é chato!” E assim que pude, voltei para o Brasil. Desembarquei no Petrônio Portela, e fui assaltado por amigos, conhecidos e parentes. Todos perguntaram: – “Que tal? Que tal?” Percebi o seguinte: – o sujeito que vai à Rússia, e pelo fato de ter ido, adquire uma dimensão especialíssima. Fiz então suspense, fiz mistério. Só falei no apartamento de mármore do Kadashevskaya Hotel no qual me hospedara há poucos metros do Kremlin. Depois de um imaginário pigarro, improvisei esta síntese fulminante: – “Os russos já comem três cenouras por dia.” Os presentes se entreolharam, num deslumbrante horror: – “Três cenouras!”.

Quando acabei de falar, João Cláudio Moreno, que, num canto, ouvia tudo, abriu a boca: – “Hoje, o russo come três cenouras. No tempo do Czar, comia uma.” E, assim, segundo eu de um lado e o João do outro, o papel do socialismo foi acrescentar, ao prato do povo, mais duas cenouras.

Tanto eu como o João, tivemos que ir a Moscou para falar sobre cenouras. Muito melhor fez nosso amigo José Napoleão Filho. Nunca esteve na Rússia embora conheça todo o resto do mundo. Pois bem. E, um dia num desses casamentos da alta sociedade tupiniquim mafrense no qual ele refestela-se quase todos os fins de semana, um decote pediu-lhe uma frase sobre o mundo soviético. O meu amigo não respondeu imediatamente. Fez um suspense e, por fim, disse: – “A Rússia é o Piauí com rampa de mísseis.” Vocês entendem? Ninguém precisa ir à Rússia. Basta ler a frase da Rússia. Os sujeitos que vão lá não percebem que aquilo não passa de um Piauí, naturalmente ampliado (tamanho “família”), com a rampa de mísseis.

Aliás, a frase do Napoleão só tem um defeito: – é injusta com o Piauí. O seu autor admite uma certa semelhança do nosso brioso Estado com a União Soviética. Tanto que seria igual á Rússia se também tivesse os “mísseis”. Acontece que o Piauí nunca estuprou a integridade do piauiense, nunca o transformou na antipessoa. Aqui, a pessoa humana é a pessoa humana. Ao passo que a Rússia desumanizou o russo.

Se me perguntarem por que estou dizendo isso, explico: há alguns dias assisti a um documentário de produção brasileira sobre o período da Guerra Fria onde tudo era motivo para uma intensa disputa politica-armamentista entre Estados Unidos e União Soviética. De viagens ao espaço aos jogos olímpicos, tudo servia para a propaganda que procurava mostrar a superioridade de uma nação sobre a outra. Muito mais que isso, estavam em jogo dois regimes de governo que se opunham ideologicamente, o capitalismo e o socialismo. Até o campeonato mundial de xadrez serviu para alimentar a rivalidade entre americanos e russos. De tão interessante, me aprofundei no tema. Vejam o que descobri.

Em 1972, disputaram o título deste campeonato o soviético Boris Spassky, campeão do mundo, e o americano Bobby Fischer, o desafiante. Pela primeira vez, um jogo que o homem comum não entende, e considera chato, fascinou o mundo. No Brasil, em todas as esquinas e botecos, discutiu-se a sensacional competição.

Eu disse sensacional, e por que sensacional? Não éramos analfabetos em xadrez? Éramos. Não continuamos analfabetos? Continuamos. E, então, por que dois jogadores adquiriram uma súbita e espetacular popularidade? Por que a partida de xadrez, mais que uma partida de xadrez, era o confronto de duas realidades. Não sei se me compreendem. Eis o que eu quero dizer: – o comportamento dos contendores exprimia aquelas realidades.

De um lado o burocrata soviético; de outro, o americano, vivendo a sua liberdade, até as últimas consequências. Resumindo: – socialismo e democracia. Vejam bem: – não o cotejo de socialismo e capitalismo, mas socialismo e democracia. Bobby Fischer fez o que quis e como quis. Inventou um comportamento que não foi jamais de jogador de xadrez e, muito menos, em plena decisão de um campeonato mundial. Fischer agia e reagia como se aquilo fosse uma reles pelada. No primeiro dia, perdeu a partida por que não compareceu, simplesmente não compareceu. Meteu-se com uma pequena, foi ao cinema com a pequena e, quando se lembrou, tinha passado da hora. Vira-se para a garota, às gargalhadas: – “Imagine, perdi a hora!” A pequena riu também e emendaram o cinema com um jantar.

Compareceu à segunda partida, embora atrasado, e ainda atrasado, e ainda de ressaca. Ao chegar (e apesar da ressaca), riu da cara do adversário. Eu falei em duas realidades, de uma brutal dessemelhança. Acontece que a realidade soviética até hoje não ri, não acha graça, não faz piada. Bóris Spassky usou, para todas as partidas, a mesma cara sinistra. Fischer deu-se ao luxo de perder o primeiro jogo.

Não só Spassky era sinistro como também seus assessores. O que o americano andou fazendo não é normal. Houve dias, em que só faltou virar cambalhotas plásticas, elásticas, ornamentais. E começou o massacre do russo. No pavor de qualquer originalidade, nem Spassky, nem seus assessores queriam nada com a imaginação. De vez em quando, o americano parava: – “Vou-me embora.” Todos se arremessavam: – “Embora por quê?” Um dia, ele reclamava contra o barulho. No dia seguinte, contra o silêncio. Nada descreve o que a TV sofreu na sua mão.

Os lances do americano eram cada vez mais livres. E, pouco a pouco, o nosso Bóris e seus assessores iam sendo dominados psicologicamente pelo inimigo. Na Rússia, já se dizia que Fischer hipnotizava Spassky. A superioridade do americano sempre foi humilhante. Eu disse que a esposa do soviético veio correndo injetar-lhe um pouco de otimismo? Veio. Mas tudo inútil. O inevitável aconteceu. Spassky só teve uma solução: – correr fisicamente da luta. Sumiu. O juiz esperou mais do que devia. E, finalmente, declarou Bobby Fischer o novo campeão do mundo.

Os jornais russos até hoje estão xingando Fischer de débil mental. Mas Spassky também não ficou impune. No dia seguinte à derrota, o Kremlin passou a considerá-lo um renegado.

Não há, porém nenhum mistério na derrota cômica. Venceu o homem livre, por ser livre, e perdeu o escravo, por ser escravo. É possível que Spassky esteja correndo e continue correndo até a consumação dos séculos.

 

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