Como foi a sua primeira vez?

Eu nasci em pleno carnaval e desde muito pequeno vibro com a profusão de cores, sons e sentimentos desta festa que faz a fantasia escancarar a realidade. Amo o carnaval!

Por ser evangélica a maior parte da minha família não brincava nos blocos de carnaval. Mas acredito que, por serem educadores, compreendiam a sua importância cultural, em especial das escolas de samba com seus enredos divertidos e enriquecedores.

Foi natural a minha paixão por essa maneira peculiar de se contar histórias. Mesmo sozinho em casa eu virava a noite para assistir todas as escolas pela tv, tentava entender o significado de cada fantasia, o porquê de cada alegoria e me sentia habilitado para dar palpite sobre tudo. Durante o dia eu ouvia o LP dos sambas enredos ininterruptamente, construindo no meu imaginário o desfile ideal…e ali eu era carnavalesco, Rei, palhaço, mestre-sala, comissão de frente. Naquela brincadeira de criança eu era feliz!

Naquela época o meu sonho era assistir aos desfiles ao vivo, admirar os defeitos das alegorias feitas com esforço da criatividade popular, sentir a empolgação dos componentes em defender as cores e a tradição de suas origens, ser contagiado pelo sorriso e alegria de cada folião. E aplaudir seria a minha contribuição a toda aquela maravilha! Além da questão religiosa, a minha família também não dispunha de muitos recursos. Então, estava resignado de que este feito teria que ser adiado por muito tempo.

Mas a capacidade que algumas pessoas possuem de enxergar os outros e amá-los é transformadora.

E foi assim que a minha mãe acordou em um dia de carnaval disposta a me fazer sentir querido e, apesar de suas convicções religiosas e pouca verba, decidiu que iria me levar à Sapucaí. Descobriu onde conseguiria ingresso, preparou lanche, me pegou pelos braços e partiu comigo, sozinha, naquela aventura. Digo aventura porque naquela época ainda existia a “geral”, que ficava bem pertinho do desfile, era mais em conta, mas só dava para assistir de pé e imprensado. Mas eu vi tudo muito bem porque a minha mãe fez dos seus braços apoio para eu sentar a noite inteira.

Naquela noite, enquanto a Mangueira e a Portela disputavam o título de super campeã na inauguração do Sambódromo, aquela mulher transformava a minha vida. Era a primeira vez que sentia, com toda a intensidade, o que é ser amado e como isto faz bem. Aquele passeio não era somente a satisfação de um desejo. Significava muito mais. Deixava claro que alguém se importava comigo o suficiente para se esforçar e atuar em tarefas adversas ao seu gosto com a pura finalidade de me fazer feliz. Amei aquela noite e nunca mais a esqueci!

 

Saulo Nixon
Coordenador e DENTISTA DO BEM de São Gonçalo/RJ