por Luiz Roberto Scott
(coordenador voluntário de São Paulo/SP)

 

– Cafés riados, santos tipo I , bebida mole, café cereja…

Arlete ouvia tudo atentamente, mesmo após um dia de trabalho. Aquelas aulas do curso de barista eram importantíssimas para sua formação e a concretização do sonho de abrir seu próprio negócio! Anotava as aulas, as referências nos cantos das páginas. Queria aproveitar ao máximo pois este curso duraria 2 meses e já estava inscrita para o curso de gestão e marketing no segundo semestre. Afinal, ela ainda precisaria escolher um nome para o seu empreendimento e buscava uma diferenciação no concorrido mercado de cafés.

– Robusta, arábica e a importância dos “terroirs”, assim como os vinhos, os cafés variam também de acordo com a região em que são produzidos – continuava o professor, enquanto ela atenta anotava freneticamente, era sua especialidade saber anotar. Imagens de sua infância em Lambari… D. Epifania com o coador de pano, a água aquecida no fogão a lenha, o café acrescentado a água fervente e açúcar para depois ser coado no pano… eram como flashes na longa sequência de variedades da bebida que o professor agora falava:

– O Café espresso curto corresponde de 25 a 35 ml da bebida na xícara de 50 ml; Ristretto é o café curtíssimo de 15 a 25 ml, o carioca é o espresso curto adicionado de 20 ml de água quente e o café longo é a xícara completa de 50ml. Devemos sempre lembrar que o néctar do café reside nos primeiros 30ml, nesta forma ele mantém e realça seu sabores e seus óleos essenciais…

A imagem da cozinha de d Epifania lhe ocupava agora a mente, apesar de simples era impecável… uma pequena pia com a torneira alta saindo da parede, ao lado ficava o paneleiro com as panelas expostas e muito bem ariadas de alumínio grosso ou mesmo ferro fundido, bules e xícaras de ágate. No lado oposto, encostado no canto, ficava o fogão a lenha sempre aceso. O chão de cimento queimado e ‘vermelhão’ também compunha as laterais do fogão e estavam sempre impecáveis. Ao lado do fogão uma grande mesa alta, com uma só gaveta. Era ali que se abriam massas e auxiliava no preparo dos pratos mágicos e deliciosos que eram meticulosamente preparados; sobre a mesa um grande cesto de bambu, continha frutas legumes e temperos vindos da horta, ramos de salsa e alecrim , louro e o sempre presente ora-pro-nobis…Arlete sentada à porta da despensa na parede oposta à pia observava tudo aquilo atentamente… os movimentos de d Epifania eram certeiros e quase mecânicos, lavava algo na pia, secava a mão no avental sempre preso a cintura, caminhava até o fogão mexia numa panela depois noutra, atiçava o fogo com os gravetos armazenados ao lado do fogão e ao mesmo tempo contava histórias de outrora… sem dúvida os tempos e a própria noção do tempo era outra, na casa simples de Lambari…o tempo agora era expresso!

– Das misturas com leite, continuava o professor, temos o mocha ou mocaccino que recebe calda de chocolate, espuma de leite e café; o cappuccino, com espuma de leite, leite vaporizado e café em proporções iguais e aqui atenção à espuma do leite que não deve ultrapassar os 60 graus; o latte ou cafffe latte que basicamente é o mesmo que o cappuccino porém com menos consistência; o macchiato que é o café e espuma de leite e o café com panna que é pouco visto no Brasil devido à dificuldade de manuseio do creme de leite fresco em postos de venda. Semana que vem falaremos sobre os cuidados com os moinhos e as diferentes moagens…Ate lá!

Arlete juntou suas coisas e preparava -se para sair. Já passava das 10 horas e ela ainda teria que chegar em casa, jantar e corrigir a lição de escola de Treivis… Ao fechar o caderno uma de suas anotações lhe chamou a atenção, provavelmente era uma frase compilada de um dos livros de autoajuda que ela costumava ler, mas não lhe ocorrera qual: “a nossa vontade e os nossos sonhos, residem no momento imediatamente anterior ao que os desejamos, vem daí sua intangibilidade…” (L.S.).

Caminhou para casa, informações, aprendizados e sonhos…tutti machiatto! Abraçou Treivis ao chegar, e ao responder positivamente sobre vir do curso de barista, ouviu da cozinha: “Café expresso, humpf… no coador que é forte! Nhéco!”