por Luiz Roberto Scott
(coordenador voluntário de São Paulo/SP)

 

Este ano acompanharemos algumas passagens de uma família que mora em São Paulo, suas histórias, seus percalços, suas glórias e seus temores. Apresento-lhes:

Arlete…  produtora independente de Treivis, garoto de 13 anos; ela tem 47, é secretaria bilíngue de uma multinacional da área alimentícia, católica não praticante, fã de Adélia Prado e livros de autoajuda, mora com a mãe (75) em um pequeno e antigo apartamento de trés quartos na Barra Funda. Hipocondríaca com homeopatia, fanática e fervorosa defensora da Arnica.

Foi noiva durante nove anos de um promissor jogador de futebol, mas, em fim de carreira. Cultiva samambaias e violetas em seu apto. Frágil emocionalmente, sente frequentes faltas de ar quando contrariada ou ansiosa. Enquanto aguarda sua aposentadoria, faltam 5 anos, planeja e articula a montagem de sua casa do pão de queijo e café numa casinha de esquina a poucas quadras de onde mora. Ai sim ela se livraria do transito e das quatro conduções diárias e exaustivas.

Treivis, 13 anos estuda numa escola publica da região. Tímido mas perspicaz o garoto frequenta o Espaço das Américas (onde fica o Memorial da América Latina) tres vezes por semana para andar de skate ou mesmo bater uma bolinha com seus amigos. Aos domingos, bicicleta no Elevado Costa e Silva (o minhocão) aproveitando a interdição do transito de automóveis. Acompanha a avó D. Epifania, todas as quartas de manhã quando ela vai ao varejão hortifruti da região e à feira.

Ela, sempre dona de casa, é viúva de um agricultor mineiro, homem modesto mas, trabalhador, que plantava couve e um pouco de mandioca em um pequeno sitio em Lambari, MG.

Evaristo Magela teve uma morte instantânea, trágica e incomum. Ao receber a visita de sua filha Arlete e o pequeno Treivis, então recém-nascido, pôs-se a fazer micagens, caretas e gracinhas para chamar a atenção do bebê, e numa pirueta arrojada caiu de cabeça no chão e teve morte imediata. Dna. Epifania até hoje resmunga impropérios e o mais frequente é referente ao fato: “Onde já se viu, a vida inteira plantando couve, vai plantar bananeira. Só pode dar errado! Nhéco!” (sempre terminava assim, com este “nhéco”, nunca se soube se era um personagem imaginário com o qual ela conversava ou uma expressão ou tique …)

Tendo que vir morar com a filhaem São Paulo, nunca se acostumou; Dna. Epifania tornou-se uma pessoa amarga e pouco paciente desde então. Mais amarga que couve quando cortada sem se tirar o miolo do caule… Ah a couve !! Isso ela preparava como ninguém, no ponto certo, crocante e saborosa… essa era apenas uma de suas especialidades culinárias e seus segredos… a receita do pão de queijo por exemplo era única, mas esta Arlete já guardara a sete chaves para a abertura do seu negocio, e ela sonhava e tinha até pesadelos com isto, acordava suada e pensativa com a abertura de seu próprio negócio. “Arlete abrindo seu próprio negócio… um sonho! Nhéco!”

E perdera-se em devaneio ao lembrar-se do majestoso Cassino do Lago Guanabara em Lambari, sua arquitetura suntuosa a beira do lago era o retrato de um sonho, afinal o majestoso Cassino, no Sul de Minas Gerais, funcionara apenas uma noite…

N.A.* (24/04/1911). Durante a festa de inauguração, prefeito e governador brigaram por questões do arrendamento da água mineral e o cassino não abriu mais. O palácio permanece lá, precariamente conservado e sem utilização efetiva; na época de ouro dos cassinos (1930 a1946), todas as estâncias hidrominerais no Sul de Minas exploraram dois ramos do turismo: o jogo e a cura pelas águas minerais. Em 30 de abril de 1946, o  presidente Eurico Gaspar Dutra assinou a lei que proibe os jogos de azar no Brasil.