Ensaio sobre a surdez

Após fazer um post em meu Facebook, no ano passado, recebi ligações dos amigos perguntado: “ Você está doente?” ,“ Aconteceu algo?”… Bem,  já que temos agora a oportunidade de escrever para o site da TdB, vou aproveitar a oportunidade e reviver um fato pessoal!

O carnaval 2011 trouxe-me grandes surpresas… Há 14 anos eu aguardava a visita de amigos norte-americanos. Eles queriam conhecer o Rio de Janeiro e assim o fizemos. A cidade maravilhosa continuava maravilhosa e o clima festivo do carnaval contagiava todos que estavam lá: turistas, moradores e os curiosos. No Leblon e em Ipanema, com vista para a comunidade do “Morro do Vidigal”, trios elétricos e blocos fantasiados passavam atraindo moradores que os seguiam dançando as conhecidas marchinhas de carnaval, os sambas-enredo e outros sucessos. Isso é muito bom para desenferrujar aquelas articulações que ficaram na preguiça por um ano. Dançar amolece a alma e dá flexibilidade à razão, dizem alguns psicólogos.

Fomos ao ensaio da escola de samba do Salgueiro, na contagem regressiva para o grande desfile. Fiquei boquiaberto! Não esperava encontrar, naquela quadra de treinos para o carnaval, as diversas gerações da comunidade que vive aquela “fantasia”. Ali estavam avós, filhos e netos, dividindo a mesma alegria e analisando criteriosamente o desempenho de seus sambistas mirins e adultos. Todos no embalo de uma bateria afinadíssima, cuja percussão nos sacode o corpo inteiro. Os globais e os turistas curiosos estavam ali junto à comunidade do Salgueiro. Nenhuma briga! Nenhum roubo! Nenhuma violência que pudéssemos perceber.

No dia seguinte, ao caminhar pela praia, observei um grupo de aproximadamente 10 pessoas conversando em Libras, a linguagem dos surdo-mudos. Fiquei impressionado como eles se comunicavam rapidamente e davam gargalhadas… Não entendi absolutamente nada porque não sei Libras. O fato me fez recordar aquele dia de conferências com o título de “Odontologia Deficiente” durante o Sorriso do Bem 2010. Foi surpreendente a análise dos portadores de deficiência discorrendo sobre as profissões que excluem ou dificultam o atendimento.

Ao voltar do Rio para Araçatuba, amanheci 100% surdo de um ouvido, segundo avaliação audiométrica. Consultei médicos e soube que existe uma patologia chamada Surdez Súbita, cujas causas podem ser: traumática (ouvir som alto), patológica (tumores cerebrais, infecções) e de etiologia desconhecida. Foi-me recomendado afastar da alta-rotação, tomar vasodilatadores, drogas para neuro-regeneração e complexo vitamínico. Fiquei muito assustado, pois não tive tempo de me adaptar à perda auditiva. A semana estava chuvosa e senti uma grande tristeza por não ouvir sequer os trovões. Lembrei-me daqueles que riam na praia do Leblon, conversando em libras e me perguntei como eles conseguiam dar risadas e se divertir?

Fui pesquisar o assunto e soube que ao ficarmos ao lado de uma caixa acústica que emite um som muito alto ou perto de uma bomba que estoura nas festas juninas, ou ainda, ao disparar um tiro de qualquer arma de fogo poderemos lesar de forma irreversível nossa audição. Aquele zumbidinho ouvido ao sairmos de uma festa, night club, jantar dançante etc., pode ser indício de que no dia seguinte poderemos ser acometidos pela surdez súbita, caso tenhamos predisposição. O difícil é saber quem é que tem predisposição…

Quando Saramago escreveu o “ensaio sobre a cegueira”, com certeza se colocou no lugar daqueles ali descritos. Esta experiência tem me ajudado a compreender as deficiências alheias porque eu as tenho em grande número e nem sempre sei lidar com elas. Há duas surdezes perigosas: a do corpo e a da alma.

Assim terminou o meu Carnaval 2011 e acho que entendi como funcionava o cinema mudo ao estilo Charles Chaplin. Compreendi também o que significa a tecla “mute” ou a tecla “SAP” de nossos televisores. Admiro a superação daqueles que tiveram que descobrir que no silêncio também há vida e alegria! Minha audição voltou gradualmente após 2 semanas do ocorrido e hoje estou muito feliz de poder contar este depoimento aqui no site da Tdb.

 

Osvaldo Magro Filho
Coordenador e DENTISTA DO BEM de Araçatuba/SP