por Luiz Roberto Scott
(coordenador voluntário de São Paulo/SP)

 

Despretensiosamente baseado na obra de J.Saramago

…Existe uma coisa dentro de nos que não tem nome, essa coisa somos nos…
(J. Saramago) ( Ensaio sobre a cegueira )

Um dia numa cidade grande o sinal abriu e todos os carros andaram menos um…

(Meu Deus, perdi todos meus dentes!!)…

As pessoas vinham em seu auxilio e o motorista não conseguia emitir nenhum som… Não conseguia expressar sua agonia e seu desespero. Seguiu para casa, como fazia habitualmente, parou na garagem do prédio e passou pelo porteiro sem dizer uma palavra, como fazia habitualmente.

Não conseguia se concentrar- o que vou fazer, como ficarei agora? Como poderei trabalhar? Como vou poder comer? Ao se olhar no espelho não se reconhecia…

Passou a noite inteira, agitado e perguntando-se o que fazer… No dia seguinte teria que estar cedo no trabalho e receberia a visita de um importante figurão da chefia do escritório central… Como faria? Ele que era o responsável por todas as contas da filial, como iria poder encarar o tal figurão…

Amanhece o dia, ele toma seu banho e se vê em frente à pia empunhando a escova dental já com pasta… o que fazer ? o que eu farei?

Pega o elevador e aperta-se entre as pessoas que já desciam, silenciosamente como fazia habitualmente; passa pelo porteiro e segue de carro até o escritório.

Estaciona, passa pelo porteiro, em silêncio, como sempre; caminha até sua mesa. A maioria das pessoas já estava em suas mesas no escritório, separadas por paredes de vidro, todas envolvidas nos seus afazeres; olhares fixos nas telas dos computadores… Ele abriu o aplicativo como de costume e começou a preencher planilhas e relatórios de estratégias para o desenvolvimento dos negócios do escritório e sucesso da empresa.

A manhã passou rapidamente, o figurão também, através do vidro pode vê-lo caminhando rapidamente pelo escritório, falando ao celular, e com um notebook semiaberto digitando algo apressadamente. Neste momento, um sinal sonoro o trás de volta à sua tela do computador… era uma mensagem de e-mail… E era do figurão :

“ aguardo o relatório por email, ainda hoje….” Imediatamente anexou o relatório ao próprio e-mail que recebera, e enviou. Ufa! Missão cumprida!

Lembrou-se do aniversario de sua irmã e que teria que comprar um presente, e ao menos ligar para ela… no próprio PC teclou www.floresdiversasepresentesquaisquerparatodososfins.com selecionou um lindo arranjo, comprou com o cartão e mandou entregar… Acessou o facebook e deixou-lhe uma mensagem no perfil com tudo àquilo que ele queria ter dito a ela a vida toda…

O dia voara, já era hora de ir para a caminhada no parque, seguiu para lá e já de tênis enfrentou aquelas 2 horas de exercícios diários, em silêncio como de costume. Voltou para casa, e a rotineira passagem pelo porteiro e subida pelo elevador silenciosa.

Dias se passaram, meses se passaram…

Um dia ao sair de casa logo pela manhã, tomou o elevador e resolveu sorrir para as pessoas que lá estavam… E para sua surpresa todos sorriram com aquele sorriso vazio igual ao dele. Sorriu para o porteiro que sorriu vazio.

No escritório acenou para todos através do vidro e sorriu e eles lhe sorriram vazio…

Na praça, no parque… Aquele vazio havia se multiplicado em todos os habitantes daquela cidade…

Mas ele havia descoberto uma coisa fantástica, mesmo vazios os sorrisos eram manifestações das pessoas e este era o sinal para a mudança de sua rotina; manifestar-se-ia mais, abraçaria mais; choraria mais…imediatamente ligou para sua irmã, para marcarem um jantar ou algo assim… o sinal de ocupado misturou-se com o som estridente das buzinas dos automóveis que o cercavam, a avenida a sua frente vazia, sinal aberto… Atrás imenso engarrafamento… E buzinas…

Abriu os olhos, arrumou-se no banco do carro, ajeitou o retrovisor e ao sorrir notou… Estavam todos lá!

Restava-lhe acelerar…