por Nícia Paranhos Arruda
(coordenadora voluntária de Barra Bonita e Igaraçu do Tietê/SP)

 

Chegamos em agosto, mês dos pais, portanto dessa vez, minhas palavras são sobre meu pai (como prometido).

Na minha casa, os papéis foram invertidos, era minha mãe que trabalhava fora e meu pai que cuidava da casa (inclusive dos afazeres domésticos).

Lembro-me do meu pai, me levando para a escola (a pé mesmo). Era ele que fazia comigo os deveres da escola – insistia muito na tabuada, e na caligrafia…

Isso aconteceu pelo fato dos meus pais terem se conhecido muito tarde (ele com 50 anos e minha mãe com 33)  e meu pai já ser aposentado. Mesmo precisando voltar ao trabalho, não conseguiu se colocar no mercado novamente.

Era uma figura, muito à frente do seu tempo, ou então da realidade, pois veio de uma cidade grande (Rio de Janeiro), querendo continuar nos mesmos moldes. Naturalmente que não deu certo. Imaginem vocês que montou uma “mercearia”, onde se vendia frios dos mais variados numa cidadezinha do interior que, se muito, só conhecia a mortadela. Lógico que não foi adiante, não tinha público para o consumo.

Mesmo assim, nunca perdia a compostura, sempre no seu terno branco, sapatos impecavelmente engraxados e lustrados, unhas feitas (por ele mesmo, pois estou falando de muitos anos atrás), com esmalte incolor

Era fã incondicional de Carlos Gardel. Sempre que ouvíamos tango (tinha uma grande coleção de tangos, todos do citado cantor) na radio-vitrola, ele contava a história de que certa vez, estando na Argentina, hospedou-se no mesmo Hotel que Eva Peron… e subindo no mesmo elevador, ele como cavalheiro, perguntou-lhe qual seria seu andar e a resposta foi: vamos ao quarto senhor? Demorei em entender  porque ele contava aquilo com tamanho orgulho,  e fiquei sem saber se ele foi, rsrsrsrs…

“Ademarista” roxo, ostentava na parede um quadro do Sr. Adhemar de Barros com sua esposa, dona Leonor. Claro, ao lado de Carlos Gardel.

Lembro-me do seu carinho, nos cobrindo à noite e nos mudando de posição enquanto dormíamos. Dizia que assim nosso corpinho descansava melhor. Era ele que preparava o café da manhã, nos acordando com aquele cheirinho bom de ovos mexidos e pão tostado na frigideira.

Ele nos dava lições de etiquetas, comportamentos e ao mesmo tempo de peraltices. Imaginem vocês que tínhamos “técnicas de subir em arvores”…

Meu pai era muito comunicativo e cativante. Gostava muito de declamar, e tinha uma poesia que era a sua predileta: “TRISTE EPÍLOGO”. Só me lembro do seu final: “Quebra-se a taça e não se bebe mais”… E literalmente quebrava mesmo uma taça, que muitas vezes era substituída  por um copo de massa de tomate…

Ficaria horas escrevendo aqui,  minhas lembranças com meu pai, mas vai ficar para uma outra oportunidade, para não me estender .

Reverencio a memória de meu Pai, pois mesmo nos deixando tão prematuramente, nos enriqueceu com seus ensinamentos… Beijo Papai!!!