Novelas e novelas

Agora a bola da vez nas novelas da Rede Globo é a vida das “domésticas”. Empregadas domésticas jovens, arrumadas, divertidas, talentosas, sorrisos lindos e que, na trama, fazem o telespectador lembrar ou conhecer as relações entre as empregadas e suas “patroas” – relações muito antigas e recheadas de todo tipo de saia justa.

Mas o que as novelas não contam é que os trabalhadores(as) domésticos(as) no Brasil ainda são tratados como cidadãos(ãs) de segunda categoria, pois não têm acesso a todos os direitos garantidos pela Constituição Cidadã (1988) e são historicamente marginalizados na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Observando as novelas, percebemos que o emprego doméstico no Brasil é uma ocupação tipicamente feminina e de mulheres negras; ou seja, uma questão trabalhista determinada pelas desigualdades de classe, gênero e raça/etnia, que ainda hoje caracterizam a sociedade brasileira. Uma profissão marcada pela informalidade e baixa remuneração .

Segundo dados da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), mais de 70% das trabalhadoras domésticas brasileiras não têm carteira assinada, não recebem o salário mínimo e algumas ainda são vítimas da intolerância racial, assédio moral e sexual, aspectos que as novelas retratam e muito bem.

Também a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad/2009) e a Previdência Social apontam a existência de 7,2 milhões de trabalhadoras/es domésticas/os, dos quais 93% são mulheres, sendo dois terços destas mulheres negras. Impossível não lembrar que dentro desse quadro muitas delas são as mães de nossos jovens atendidos no projeto Dentista do Bem e, quando realizamos triagens em escolas, temos rotineiramente como resposta do jovem que seu pai é ausente, separado, “não mora comigo”, “não ajuda em casa”, “mataram ele”. Respostas que não são obra de ficção.

Os jovens triados pela TdB estão tendo suas oportunidades a tratamento odontológico ampliada com os 10 anos de trabalho voluntário dos mais de 13 mil dentistas. Mas e as suas mães? E a mulher que é arrimo de família, que como mãe abre mão de coisas para si, sempre colocando o filho em primeiro lugar?

Pensando num final feliz para novelas como essa, em 2007 a Turma do Bem teve uma idéia inovadora, inspirada no prêmio Nobel da Paz 2006 Muhammad Yunus – que aumentaria as chances dessas mulheres terem mais acesso a tratamento odontológico, com baixo custo, melhorando seus sorrisos, sua autoestima, suas chances de conseguirem mais trabalho: Projeto de Microcrédito para Mulheres.

Infelizmente nosso projeto ficou parado, contra nossa vontade. Mas as mulheres e especialmente as sete milhões de domésticas brasileiras, não estão paradas e nem as necessidades delas diminuíram com o passar dos anos. Ainda uma novela que espera um novo protagonista, ou uma participação especial para sair do papel. Quem sabe um dia!?

Renata Cancian
Coordenadora e DENTISTA DO BEM de Campinas/SP