O Capeletti da vovó Nena

Nunca acreditei em padrões de conduta que garantissem resultados iguais e exatos.

Minha avó materna, a Ida, carinhosamente apelidada de Nena, Vovó Nena, era uma mulher de vida e hábitos muito simples. Jamais a vi fazendo discursos complexos ou devaneios sobre assuntos intelectuais. Porém, era uma sábia. Em sua simplicidade via o que poucos enxergavam. Via o que, como ela, era simples.

Percebíamos isto em suas palavras ao redor da mesa em momentos pré-refeição, onde ela cultivava a cultura do agradecimento à comida. Antes das refeições agradecia com muita paixão o fato simples de estarmos juntos e de compartilharmos aquele momento. Ela dizia que não existia felicidade maior do que a família reunida em Taquaritinga. Aquele momento me transmitia acolhimento e paz…

Como era um dos caçulas e ainda não sabia as preces de cor (principalmente a de Caritas que era sua preferida e que ela recitava quase que sem respirar), eu ficava de olhos abertos olhando as pessoas de mãos dadas e tentando adivinhar o que elas estavam pensando, sentindo, pedindo… enfim, era uma experiência instigante e que carrego na memória.

Logo após o culto nós comíamos o famoso Capeletti in brodo feito totalmente por ela, desde a morte da coitada da galinha, que ela matava com uma facilidade enorme, quebrando o pescoço da coitada, até o momento de levar os pratos depois que todos haviam terminado de se saciar. Nem preciso dizer que até hoje nunca mais comi um Capeletti igual…

O segredo? Não sei… ninguém sabe… até por que na verdade não parecia ter segredo algum. Humildemente ela sempre repassava a receita a quem pedisse. Não escondia ingrediente algum. Pelo contrário, deixava claro que se não fosse ovo de galinha caipira (aquele com a gema quase laranja) não daria certo e que a farinha tinha que ser Renata! Não havia mulher da família, ou fora dela, que não pedisse a receita e depois contava com certa decepção que o resultado não tinha sido o mesmo.

As mais persistentes (e incrédulas) não acreditavam que ela havia passado a receita verdadeira e então, maliciosamente, pediam para acompanhá-la em uma de suas aventuras culinárias a fim de desmascarar a detentora dos segredos. Coitadas. Lá ficavam elas, por horas e horas, desde a morte anunciada da galinha, até os novos elogios finais dos familiares, agregados e amigos…

Certa vez minha mãe disse que era impossível copiá-la, pois, na verdade, não existia receita alguma. Ou melhor, até existia, mas a vovó Nena não seguia nunca a própria receita. Por exemplo, ela dizia na receita que iam 2 xícaras de farinha, mas na hora em que preparava a massa ela colocava a mão no saco e colocava mais um punhado. Então quem assistia ao seu show perguntava: “mas a senhora colocou mais farinha!!! Não eram 2 xícaras?”, e ela, espantada com a ignorância da pergunta, respondia: “mas você não está vendo que a massa ainda não está boa”?

Muitas vezes as pessoas saem em busca de receitas para tudo. Receita do casamento feliz, receita do sucesso no trabalho, receita para a dieta perfeita, receita, receita, receita… se preocupam tanto em procurar modelos que esquecem de olhar a massa… a vida… o cerne das questões. Esquecem de enxergar as coisas simples que estão à sua volta e com isso perdem o tato, a sensibilidade.

Minha avó sabia ver o que precisava ser visto e não se importava com a receita, contanto que o ovo fosse de galinha caipira!

 

Ricardo Lenzi
Consultor de Gestão e Marketing em Saúde,
Sócio-Proprietário do Altera e parceiro da TdB