por Luiz Roberto Scott
(coordenador voluntário de São Paulo/SP)

 

Desde pequeno eu o via sempre por perto, pronto a intervir se fosse necessário. Ele era grande, forte, enérgico e sábio. Nas duvidas e impasses do dia a dia, recorria-se à intervenção daquele que era o senhor supremo (sem ironia ou magoa, era assim que eu o via).

Ainda bem pequeno, lembro-me de aguardá-lo para remover os carrapichos que trazia, ao fim do dia, presos nas barras de suas calças. E nessa hora, removendo caprichosamente um a um, eu estava junto a ele, enquanto ele contava seu dia à minha mãe; falava de coisas que eu não entendia, mas não importava, o que valia mesmo era estar ali, e ao terminar a tarefa, poder então abraçar aquela canela que se encostava a meu peito como a lâmina de uma faca afiada- um verdadeiro HaraKiri. Era um momento de coragem e dedicação, onde eu demonstrava toda a minha admiração! E poder ficar ali, naquela posição, vendo-o de baixo para cima, a sua altivez, a sua simpatia, o seu carisma, era realmente recompensador. Suas mãos frias com as pontas dos dedos enrugadas, como se estivessem ficado horas imersas, teciam um carinho em meu rosto por uma boa ação, era a recompensa e o reconhecimento.

Estas mesmas mãos, que se tornavam ásperas e duras quando eram abaladas as estruturas impostas, quando se questionavam por atos ou palavras as suas designações. Nestes momentos, para mim, ele perdia toda a sua magnitude e sabedoria e tornava-se um ser normal como outro qualquer, sem brilho, apenas forte, e se necessário mais forte. Não gostava de vê-lo sem sua magia, por isso me incomodava muito quando eu ou um dos meus irmãos quebrava esse encanto.

Percebi, com o passar dos anos, que mesmo discordando de algumas opiniões e atitudes, eu poderia conviver e crescer sem querer mudá-lo; contava para isso com sua grandeza e sabedoria, contava com sua coerência. Podia me aproximar sem questioná-lo, podia ser eu e ele, aceitando-se e procurando entender um ao outro.

Foi assim que preservei o herói da minha infância e ganhei um grande amigo.

O herói continua lá, preservado na memória com toda sua magnitude; e o amigo, aqui, hoje, presente nas conversas, nas discussões, com nossas dúvidas e certezas trocadas num bate papo, numa cerveja, num uísque… ele a falar de seus filhos e eu a falar dos meus…
Assim como se cada azeitona fosse um carrapicho pinçado, um a um…

(Escrevi este texto a meu pai, no dia de seu aniversario em fevereiro de 2002; e foi o ano que ele faleceu em agosto. Que bom que pude falar isto para ele! )

PS: Morávamos na fazenda e meu pai era zootecnista- isto justifica os carrapichos…