por José Henrique Sironi
(coordenador voluntário de Laranjeiras do Sul/PR)

 

Quando tinha 10 anos, no auge da minha “unigenitura” materna e gozando de todos os benefícios que este título me conferia, tais como: poder tudo e não dividir nada, minha mãe trouxe a notícia que estava grávida. Eu vi que ela estava de arte quando começou, semanas antes, perguntar: – se você tivesse um irmão… seria menino ou menina? Ou: – você não sente falta de alguém para brincar?

Na verdade, mesmo sendo filho único, nunca achei ruim a possibilidade de ter um irmão. Pelo contrário, sempre é bom ter alguém pra colocar a culpa.

Depois chegou a notícia que seria menino e hoje, aquele terrorzinho que destruiu meu ferrorama e misturou minhas massinhas de modelar já está no 4º ano de medicina.

Como médico em formação, Matheus participa ativamente de todas as manifestações que acontecem em prol de sua classe. Tem um senso crítico que me inspira e com certeza me influencia.

Dia desses, enquanto comíamos uma canjica, falávamos sobre o posicionamento dos médicos em relação a qualquer decisão que afeta direta ou indiretamente o grupo. E diante da sua crítica, pedi que escrevesse sua visão sobre o programa “Mais Médicos”, do governo federal… Segue seu texto:

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“ Nos últimos meses os médicos e estudantes de medicina vêem-se envolvidos em grandes polêmicas envolvendo a saúde pública brasileira. A primeira delas foi a proposta do governo em trazer ‘milhares de médicos estrangeiros’, para atuar nas regiões onde há maior carência de profissionais, especialmente nos ‘rincões’ mais distantes e periferias dos grandes centros urbanos. A proposta em si não é ruim, entretanto trazê-los sem realizar a prova de revalidação de diploma é que o é. Será que esses profissionais sem a devida competência atestada serão capazes de mudar a realidade do SUS?

Todos sabemos que hoje não é possível fazer medicina apenas com estetoscópio, esfigmomanômetro, lanterna, termômetro e martelo, muito menos somente com médicos. Se faz com exames laboratoriais, de imagem, leitos de hospitais e de UTI, unidades de saúde descentes e bem equipadas e principalmente com trabalho multidisciplinar.

Quem nunca se chocou ao ver pacientes e mais pacientes acomodados de qualquer jeito nos corredores dos hospitais? E o que falar das unidades de saúde espalhadas pelo Brasil que na maioria dos casos estão ‘em pedaços’, com uma infra-estrutura péssima. Faltam desde fios de sutura até auto-clave para esterilização dos materiais. Entretanto tudo isso não é culpa dos médicos, ou da falta desses, nem de qualquer outro profissional da saúde: é culpa do descaso com a saúde brasileira, com sucessivas (e) péssimas gestões.

Engraçados como existe hipocrisia nessa medida chamada “Mais Médicos”. Certos mandantes trataram suas neoplasias no mais moderno hospital do país, o Sírio Libanês, que por seriedade não contrata médicos formados no exterior que não tenham realizado o Revalida. Por que os cidadãos usuários do SUS podem ser tratados por esses profissionais? Será que eles têm menos valor? Ou será que não valem nada mesmo?

Hoje os ‘bodes expiatórios’ do governo são os médicos. São eles supostamente os culpados pela calamidade em que se encontra o SUS. Mesmo sendo mentira. Amanhã serão os dentistas, os enfermeiros, os fisioterapeutas etc. Não importa quem os políticos irão atingir, desde que, falaciosamente alcancem seu objetivo, que certamente não é o bem estar da população.

Mas esse mesmo governo não conta à população que não aplica os 10% que deveria investir no SUS. Que desde 2005 houve uma perda de mais de 40.000 mil leitos. Que as instalações da atenção básica estão em precárias condições.

Atualmente sobra demagogia, mentiras e propaganda enganosa por parte do governo federal e faltam soluções definitivas para o SUS. O governo tem tratado com medidas paliativas e nada resolutivas, problemas crônicos, ou seja, é correr e não sair do lugar, ou melhor procrastinar o que deve ser feito para ‘ontem’.”

Matheus Felipe Buzzachera de Araujo,
acadêmico do 8° período de Medicina
na Universidade Positivo.

 

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Tá… e por que eu coloquei este texto que mais tem haver com medicina que com odontologia?

Citei tal texto não só pelo conteúdo, o qual eu apoio, mas principalmente pela motivação e entusiasmo que este estudante de medicina o defendeu. Desde a universidade o médico é formado para defender sua classe e lutar por sua valorização. E nós, dentistas? O que nos une? Pelo que nós lutamos como classe? (???)

Desculpa, TdB, mas encontro em vocês a nossa solução… Eu já desacreditei do governo, do nosso conselho ou da classe (pelo menos como ela está). Sei que não deveria colocar tal carga sobre esta organização, mas parece-me nossa última e eficiente alternativa… TdB, continue fazer o que sabe fazer: lute…