por Luiz Roberto Scott
(coordenador voluntário de São Paulo/SP)

 

Acordo, numa terça feira ensolarada de abril, céu azul… hoje o dia promete, vai fazer muito calor, já sei, à tarde por volta das 4 horas o tempo fecha, o dia escurece, cai uma tempestade, a temperatura despenca 10 graus, e com a chuva o trânsito vai ficar caótico; não , não sou pessimista, sou paulistano.

Moro em Pinheiros, numa travessa da movimentada Teodoro Sampaio- nome dado em homenagem a um famoso engenheiro e geógrafo que trabalhou na cidade, e que hoje confunde-se com a dupla sertaneja. As ruas em Pinheiros têm nomes de bandeirantes, a que eu moro- Mateus Grou- homenageia um bandeirante mameluco, alias a maioria dos bandeirantes eram mamelucos. Mamelucos são os filhos dos cruzamentos de índios e brancos. Algumas ruas não são: a Cardeal Arco Verde, por exemplo, tem nome do primeiro bispo elevado à cardeal da América Latina; Artur Azevedo foi um poeta do início do seculo19, Rebouças foi o engenheiro responsável pela construção da estrada de ferro Curitiba -Paranaguá, dona de lindas paisagens (a ferrovia, óbvio!). Curiosamente a ruas que efetivamente chegam e saem do bairro não tem nomes de bandeirantes, o que me leva a pensar se os bandeirantes tinham mesmo esse poder desbravador.

Caminho muito pelo bairro, gosto disto. A gente acaba vendo melhor as coisas, descobre cantinhos, lojinhas, sapateiros, costureiras e acredite, até vídeo locadoras… que resistem aos tempos, e ainda são ótimos lugares para se “ descobrir” filmes extraordinários. Na região, o caos do trânsito reflete-se nas calçadas. Os pedestres não sabem que quando chove, transformam-se em portadores de necessidades especiais – o guarda chuva. Usando esta extensão corporal tornam-se mais agressivos e irracionais, “ a seco” muitos já agem assim, não há o mínimo de civilidade e educação; as pessoas agem de forma egoísta e centradas em si e em seu caminho.Alguns já agem em elevadores como a massa acéfala nas plataformas de metrô, se acotovelam para entrar sem mesmo aguardar as pessoas saírem – e olhe que o elevador só tem uma linha. Isso muito me impressiona, e pressiona… Mas às vezes temos gratas surpresas que reavivam as esperanças…

Na época, indo para o consultório pela manhã, estava frio e vinham pela mesma calçada, no sentido oposto, três moradores de rua envoltos em cobertores sujos. A calçada era estreita e insuficiente para nós quatro passarmos. Enquanto eu pensava por onde me espremeria ao aproximarmo-nos, eles abriram passagem e um deles ainda disse: “Bom dia, doutor! Bom trabalho!” Eu respondi, mas caminhei desnorteado com aquela atitude. Foi desconcertante, mas alentador.

Caímos aqui naquela velha historia do pré-conceito.

Há oito anos víamos bem mais moradores de rua. Muitos já eram bem conhecidos no bairro e tinham suas peculiaridades. Hoje em dia eles parecem não ter mais estas particularidades. São anônimos, atípicos e também ensimesmados… o que os diferenciam dos outros pedestres ? Os trajes… Às vezes nem isto. Quais seriam suas histórias?

erta vez presenciei uma cena extraordinária. Às 8 da manhã, um morador de rua sentado à beira da calçada, com uma latinha de massa de tomate com água na mão, escovava os dentes… mais do que a higiene bucal, ali ele lustrava sua dignidade !

Foi alentador, não sou pessimista, sou paulistano!