28
abr
2014

1998

por José Henrique Sironi, dentista do bem de Laranjeiras do Sul/PR

 

Quanta expectativa criei quando, em 1998, preenchi minha inscrição para o vestibular da Universidade Federal do Paraná no curso de Odontologia. Naquele mesmo ano, concluíra um tratamento que tinha iniciado há sete anos, após quebrar (pela segunda vez) os incisivos superiores. Desta vez, o custo da brincadeira foi de R$ 1.200, pagos em quatro cheques pré-datados e com desconto, por não precisar de nota fiscal.

A princípio, minha mãe orientou-me que fixasse o fragmento com super bonder. Recurso que durou exatos quatro dias e me proporcionou experiências angustiantes de ter o dedo colado dentro da boca a cada retoque (jeitinho que se dá quando você é estudante do interior e a grana é curta).

Fazia cursinho particular em um dos melhores colégios de Curitiba. Boa parte dos recursos da família eram revertidos para me manter estudando. Parentes organizaram uma “vaquinha” e mensalmente era depositado em minha conta um valor para que “me virasse” na capital. Nada poderia ser desperdiçado, muito menos a chance, talvez única, de passar no vestibular e voltar para casa como “doutor”. Mesmo assim, precisei procurar um dentista.

Fiquei deslumbrado com a clínica odontológica onde fui atendido. O banheiro luxuoso, a decoração da sala de espera. O fato de precisar ser indicado por algum paciente de confiança… de não ser apenas um dentista e sim, três, cada um especialista em uma área. Nunca tinha entrado em um consultório assim… Me apaixonei perdidamente, pela profissão ($$$) e pela endodontista, que era linda. “É isso que quero pra mim… Algo que misture a saúde, a arte e que ganhe dinheiro… Esta profissão me trará tantas alegrias!”.

Confesso que o desejo da família era que me formasse médico… o meu, nem tanto… queria ser artista plástico (“Nossa! Você é talentoso !” – cresci ouvindo isso dos professores, dos amigos e primos ). Mas aqueles acontecimentos recentes influenciaram de forma significativa a minha escolha.

Que ilusão… Há pouco precisei votar nos Ilustríssimos Conselheiros do órgão que nos representa aqui no Paraná… e minha sensação não é mais de deslumbre, como quando entrei naquela clínica. Meu sentimento é de nojo… Nojo por ser obrigado a votar em uma chapa única, que sequer sei se me representa (sob ameaça de multa se não o fizer). Nojo por ter uma odontologia cara e para poucos, sem perspectiva de mudança. Nojo por trabalhar em um país que investe bilhões em coisas supérfluas e exige mendicância para fornecer escovas de dente de R$ 0,35 para a população.

Votei… com um profundo desejo de vomitar sobre a urna. Arte contemporânea…

 

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